Usos do Esquecimento

Reconhecemos a importância da memória em nossas vidas, lembrar do passado, da nossa infância, dos nossos pais, dos acontecimentos marcantes que deram certo ou não na nossa trajetória pessoal. Assim como sabemos do valor da memória coletiva e da narrativa histórica, que garante uma consciência do vivido pelos diversos grupos sociais, consolidando o passado nacional e local.

Mas e o esquecimento? Devemos também esquecer os acontecimentos pessoais que nos foram nocivos? É possível esquecer? Os povos podem esquecer seu passado histórico, as guerras, as revoluções, e demais acontecimentos traumáticos? O que esquecer?

Em os “Usos do Esquecimento” (Ed. Unicamp) encontramos cinco reflexões a respeito das questões postas acima. A publicação   traz um conjunto de conferências proferidas em 1987, no Colóquio de Royaumont. A Abadia de Royaumont localiza-se nas proximidades da comuna francesa de Asnières-sur-Oise, na França.

Reuniram-se nesse colóquio historiadores, filósofos e linguistas para refletirem a respeito das relações entre memória e esquecimento.O historiador Yosef Hayim Yerushalmi discorre sobre as diferenças entre memória e reminiscência, entre o esquecimento pessoal e o coletivo. Nicole Loraux, historiadora e antropóloga, aborda a questão da anistia e nos pergunta: é possível esquecer por decreto? Ela retorna ao passado grego para discutir as estratégias políticas para esquecer e rememorar o passado. Hans Mommsen, historiador alemão, recupera as sequelas do tempo do regime nazista para falar das possibilidades de esquecimento dos terríveis acontecimentos daquele período. O linguista Jean – Claude Milner utiliza as ideias de Freud para abordar a relação entre esquecimento, real e linguagem. Por fim, o filósofo Gianni Vattimo, com base em Heidegger e Nietzche, reflete sobre o esquecimento a partir da ideia de historicização da cultura: “o excesso de conhecimento histórico, tomado no sentido mais amplo da palavra (que implica um elo profundo, mesmo que, às vezes, difícil de ser reconhecido, entre historiografia, historiografismo e cultura de massas), é um traço característico de nossa condição” (Vattimo, p.100).

Assim como falamos em cultura da memória e políticas da memória, podemos também falar em estratégias de esquecimento, que podem ser promovidas por interesses diversos, pessoais e coletivos, mercadológicos e políticos. As ditaduras latino – americanas, por exemplo, geraram políticas de esquecimento contrapostas pelas Comissões da Verdade instauradas em diversos países. Essas Comissões procuraram inscrever na memória as violências praticadas por esses regimes, trazendo novas configurações para a história desses países.

Diante disso, o paradoxo lembrar e esquecer nos questiona a respeito dos usos da memória e do esquecimento, seja em termos políticos, o que nos é permitido esquecer ou lembrar ? Quais são as manipulações da nossa memória? Seja em termos psicanalíticos, o que precisamos esquecer para podermos reconstruir nossas vidas cotidianamente?

Tal reflexão é fundamental para a sociedade contemporânea que, nas palavras de Andreas Huyssen, cultiva uma cultura da memória e onde tanto as lembranças como o esquecimento são passíveis de múltiplas formas de abuso, assim como ambos podem trazer benefícios na busca da verdade e da reconciliação.

O Fim do Homem Soviético

A partir de 1985 a URSS passou por uma série de mudanças econômicas e políticas que ficaram conhecidas pelos termos russos Perestroika e Glasnot. Essas mudanças se inciaram com o governo de Mikhail Gorbatchev e prosseguiram com governantes posteriores como Boris Yeltsin.

É nesse cenário que se inserem os relatos transcritos no livro “O Fim do Homem Soviético”, da vencedora do prêmio Nobel de 2015, Aleksièvitck Svetlana. A autora entrevistou dezenas de pessoas entre 1991 e 2012, para falar de suas vidas cotidianas diante das mudanças que estavam acontecendo na Rússia.

Nesses relatos encontramos depoimentos daqueles que nasceram e cresceram durante o Império Soviético, que se formaram acreditando no poderio daquela nação e em todo o ideário professado pelo comunismo. Muitos estavam perplexos com as mudanças, deprimidos pela ruína de seu país, pelo empobrecimento de muitos e pela chegada dos valores capitalistas. Outros, acreditavam que a nova Rússia poderia trazer mais liberdade política e mais transparência para as ações do Estado.

As histórias desses personagens são incríveis, nos contam detalhes de suas vidas na URSS, sobre a escola, as conversas nas cozinhas, o medo de serem escutados, sobre o Partido Comunista, os trabalhos forçados, Stálin. Falam sobre os primeiros anos da Revolução Russa, a construção de uma sociedade que eles acreditavam igualitária, a união das Repúblicas, quando todos se tornaram irmãos em nome do comunismo. Depois nos falam do momento em que essas Repúblicas proclamaram suas independências, as inúmeras guerras e quando esses mesmos irmãos tornaram-se inimigos de sangue.

Os relatos são carregados de sofrimentos, pelas perdas que viveram, por não compreenderem as mudanças e não saberem para onde estavam indo. Para nós que os lemos eles são emocionantes e interessantes para nos aproximarmos de uma parte da História contemporânea e entrar em contato com os testemunhos dos que viveram períodos de grandes transformações.

 

Hereges

“Hereges” do escritor cubano Leonardo Padura trata da questão dos Judeus em dois momentos e espaços históricos: em Cuba, durante a Segunda Guerra Mundial e em Amsterdã, no século XVII. O escritor narra as perseguições e preconceitos que atingiram desde sempre esse povo.

O livro traz à tona acontecimentos esquecidos a respeito dos imigrantes judeus originários da Polônia, que tentaram desembarcar no porto cubano em 1939, sendo recusado o desembarque pelas autoridades locais. Além desse fato, entramos em contato com a vida dos judeus em Cuba, nesse mesmo período, seus problemas, conflitos e prazeres na cidade que ainda não vivia o regime comunista.

A pesquisa de Padura a respeito dos judeus é minuciosa, retrocedendo até o século XVII quando Amsterdã, na Holanda, abrigava uma enorme comunidade judaica.

O enredo do romance tem como elemento central um quadro do pintor Rembrandt, no qual está retratado um Cristo, de forma realista, tendo sido utilizado como modelo um jovem judeu. Essa obra trouxe consequências a todos os envolvidos, tanto para aqueles que participaram da sua confecção, como para aqueles que a adquiriram como obra de arte.

Várias questões são colocadas em discussão nesse romance de Padura, além da própria questão dos Judeus, temas como Liberdade, Religião e Arte são explorados na narrativa.

Memória

A cidade em que vivo guarda as cores da minha infância. O verde dos jardins, o laranja dos entardeceres, o vermelho dos semáforos.

A cidade em que vivo guarda os cheiros da minha juventude. A fuligem das ruas, o azedo dos bares, o mofo dos cinemas.

A cidade em que vivo guarda os sons da minha maturidade. O freio dos ônibus, o burburinho das calçadas, o tilintar dos cafés.

A cidade em que vivo guarda as imagens da minha memória. Cidade cinza, cidade apoética, cidade melancólica.

Que como uma caixa preta me revela a cada instante os meus dias vividos.

 

Cecília Dias

 

 

 

 

 

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