Todos os Nossos Ontens

Benito Mussolini assumiu como primeiro ministro da Itália, em 1922. Foi o fundador do fascismo, corrente política que defende a tomada do poder pela força e a implantação de um governo ditatorial. Em 1925, autoproclamou-se ditador e exerceu forte repressão aos trabalhadores, aos partidos de oposição e à liberdade se expressão.

Em 1940, a Itália entrou na Segunda Guerra Mundial ao lado dos alemães, sua participação significou uma série de derrotas para os italianos, além de uma grave crise econômica que atingiu todo o país. Em 1943, Mussolini foi deposto pelo próprio Partido Fascista. Com a ajuda dos alemães ele conseguiu ser empossado novamente, mas em 1945, após a derrota da Alemanha na guerra, ele foi preso e fuzilado junto com sua amante.

Esse é o cenário onde vivem os personagens de “Todos os Nossos Ontens”, escrito por Natalia Ginsburg (1916 – 1991), publicado pela primeira vez em 1952. Duas famílias marcadas pelo fascismo, pela guerra, pela Itália ocupada por alemães. Observamos o cotidiano, as relações familiares, os vínculos amorosos, os conflitos políticos e os desamores dessas famílias do norte da Itália.

A escritora Natalia Ginsburg também sofreu a violência e a repressão fascista na Itália. Seu pai e seus irmãos foram presos pelo regime fascista, em 1935. Seu primeiro marido, Leone Ginszburg, teve que se exilar no sul da Itália, de 1940 a 1943. Leone foi preso pelos nazistas, torturado e morreu em 1944.

Esse contexto histórico está fortemente presente na narrativa de “Todos os Nossos Ontens”, entretanto, são as subjetividades dos personagens que conduzem a ação. As personalidades, os afetos e as sensibilidades diversas guiam as vidas de Anna, Ippolito, Concettina, Cenzo Rena, Giustino, Emanuele, alguns dos personagens dessa história. Tornando-os particulares diante das situações que são comuns à todos os que viveram naquele período.

Autobiografia de Todo Mundo

“O mundo está coberto de pessoas e assim ninguém pode se perder mais e os cachorros não latem mais para a lua há tantas luzes em todos os lugares que eles já não notam a lua.”

“O mundo está coberto de pessoas”. Essa frase é repetida muitas vezes por Gertrude Stein no seu livro Autobiografia de Todo Mundo, publicado pela primeira vez em 1937. Penso que a frase pode ser lida de muitas maneiras. Traduz as mudanças do mundo após a Primeira Guerra Mundial, o crescimento das cidades, a aceleração provocada pelas máquinas, pela eletricidade e automóveis, os deslocamentos constantes e a agitação cultural dos anos de 1920.

Stein começa a Autobiografia de Todo Mundo com comentários sobre a Autobiografia de Alice B. Toklas, publicação anterior da mesma escritora, lançado em 1933. Essa última alcançou grande sucesso entre os leitores da época, mas também lhe rendeu muitas críticas. Algumas das pessoas mencionadas nos seus relatos se sentiram ofendidas, ou consideraram que Gertrude Stein não havia sido verdadeira nas histórias que contou sobre seus amigos. Ela menciona essas críticas, mas ao mesmo tempo parecia não se importar tanto, pois gostou bastante de ter alcançado sucesso com seu livro. Ela mesmo diz que tinha se tornado celebridade e gostava muito disso.

Em decorrência do enorme sucesso, Gertrude Stein e Alice fazem uma longa viagem pelos Estados Unidos, visitam muitas cidades e universidades, onde Stein realiza palestras e cursos para jovens estudantes. Com a escrita que lhe é peculiar, a escritora narra suas experiências como viajante e conferencista. Seu texto é construído sem pausas, sem vírgulas, com repetições de palavras e acontecimentos, com um fluxo contínuo de descrições e sensações. Nós, leitores, participamos da viagem, observamos os caminhos pelos quais passam, conversamos com quem elas encontram pelo mundo, coberto de pessoas.

O mundo de Gertrude Stein era coberto de muitas pessoas ilustres, pintores, intelectuais, escritores, músicos. Suas histórias são recheadas de curiosidades sobre essas personalidades, que a acompanharam por toda a vida. Seus escritos também nos contam sobre o próprio trabalho, o ato de escrever, seus livros, suas conferências. As diferenças entre ler, escrever e falar. Ou como ela mesma falava, o fora e o dentro, falar vem de fora, ler vem de dentro.

O mundo está coberto de pessoas, sejam elas europeus, asiáticos, americanos ou africanos. Todos indo e vindo de algum lugar. Stein morava em Paris, nasceu nos Estados Unidos, tinha empregados chineses, indianos ou poloneses. Na América conviveu com europeus, americanos, mexicanos. Falava dos negros que encontrava, das suas atividades, dos seus modos de vida. Seu mundo estava povoado de nacionalidades e de experiências com pessoas diversas.

A Autobiografia de todo o mundo é de todo mundo com o qual Gertrude e Alice conviveram algum dia. É um experimento literário, uma descrição de cotidianos banais, mas sem banalidade alguma.

Êxtase da Transformação

Stefan Zweig foi um escritor judeu, que saiu do seu país a fim de se exilar dos horrores do Nazismo que assolava a Europa. Fez primeiro uma viagem com sua esposa para os Estados Unidos e depois de um tempo se instalaram em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Zweig foi um dos maiores escritores do final do século XIX, sua obra teve repercussões na literatura, no teatro e no cinema. Ele era um intelectual bastante popular nos países europeus. Escreveu além de romances, biografias e peças de teatro.

Em “Êxtase da Transformação” a personagem Christine, pertencente a uma família pobre, trabalhadora da empresa de correios, se deslumbra quando entra em contato com pessoas de uma origem social burguesa, se encanta com a riqueza e o luxo das vestimentas e dos objetos. É seduzida pelos novos amigos e por uma sociabilidade própria desse grupo social. Passa alguns dias com sua tia num hotel de luxo e ali transforma-se numa moça bem vestida, rica e cheia de amigos.

De volta para sua casa, entristece-se ao se deparar novamente com a pobreza, com a rotina do trabalho, com as roupas puídas, com os lençóis ásperos.

Esse retorno transforma agora sua personalidade, torna-se uma pessoa amarga, cheia de desesperança e ao mesmo tempo ávida por uma saída rápida dessa vida simplória.

O cenário é a guerra, as personagens sofrem as consequências sociais e econômicas trazidas pelo conflito mundial. O sentimento é de desespero.

O percurso dessa personagem não é diferente da trajetória do próprio Zweig, que nasceu no interior da burguesia vienense, viveu um período de intenso reconhecimento pelo seu trabalho e que sofreu as desventuras causadas pela guerra. Até se suicidar com a sua esposa, em 1942, quando residia no Brasil.

A amargura de ver seu mundo ruir, o horror das atrocidades de uma guerra e a profunda falta e esperança de que poderia ainda ter uma vida melhor, são pontos de contato entre a personagem desse livro e o próprio autor que a criou.

A Vida Invisível

O livro de Marta Batalha, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, foi adaptado para o cinema e o filme dirigido por Karim Ainouz.  Ainda não assisti ao filme, mas acabei de ler o livro. E adorei!

A história poderia ser escrita pela minha avó, pela minha mãe, minha tia, ou tantas outras mulheres que viveram num passado bem recente. As opressões cotidianas sofridas pelas mulheres frente à sociedade patriarcal aparecem nas personagens femininas dessa narrativa. Muitas vezes, lendo o livro, eu me lembrei de situações narradas pelas mulheres da minha família. São histórias muito próximas, de um universo conhecido. Opressões ainda vivenciadas por muitas ainda hoje.

Eurídice tenta escapar de um destino de esposa e dona de casa, inventa sempre o que fazer. Nessas invenções mostra suas habilidades desprezadas pelo marido. Poderia ter se tornado excelente cozinheira, ter escrito um livro, ter sido uma famosa costureira. Poderia ter sido, mas não foi. Sua irmã tenta escapar das consequências de um abandono. As duas vivem no Rio de Janeiro, conhecem personagens importantes dessa cidade e convivem com os diferentes grupos sociais dos anos de 1950.

Uma história muito bem contada e escrita com maestria. Uma deliciosa leitura!

O Fantasma sai de Cena

Esse é o primeiro livro do escritor americano Philip Roth que eu leio. Roth nasceu em 1933 e faleceu no ano passado, 2018. Na ocasião da sua morte várias matérias foram publicadas sobre sua obra e foi daí que surgiu meu interesse em ler seus livros.

Em o “Fantasma sai de Cena” um escritor já velho, depara-se com as limitações físicas impostas pela idade. Ele sofre de uma incontinência urinária, e por isso, faz uma viagem para New York, saindo do vilarejo onde escolheu para morar nos últimos anos.

Nessa viagem toma contato com pessoas do seu passado, com desejos adormecidos, com as angustias da velhice e os temores da aproximação da morte.

Gostei da forma como Roth narra a história, como nos apresenta as personagens e das observações que faz da conjuntura política e social da sociedade americana.

Com certeza, esse foi só o primeiro, já escolhi quais serão os próximos desse escritor que lerei em breve.

Voragem

Voragem foi escrito por Junichiro Tanizaki na década de 1920. Trata-se da história de um triângulo amoroso, entre Sonoko, seu marido Kakiuchi e a amiga Mitsuko. Esses três personagens se envolvem numa trama desencadeada pela amizade entre Sonoko e Mitsuko, que se conhecem numa escola de pintura e desenho. Essa aproximação das duas mulheres vai se intensificando e se transforma numa relação amorosa, profundamente apaixonada.

Sonoko aos poucos torna-se obsessiva por Mitsuko, atraída por sua beleza. Essa obsessão aos poucos vai envolvendo marido, namorado e familiares, numa trama envolvente, cheia de peripécias e imprevistos, contada em primeira pessoa pela própria Sonoko. O leitor é também enredado por essa história que termina tragicamente.

Tanizaki é considerado um dos maiores escritores japoneses, sua obra nos permite entrar em contato com a literatura daquele país, assim como conhecermos aspectos da cultura do Japão naquele período como a relação entre mulheres e homens, a condição feminina e a temática da homossexualidade.

A Neblina do Passado

Mais um livro do cubano Leonardo Padura, leitura extremamente prazerosa.
Nessa história o detetive Mario Conde, já não é mais um policial, mas trabalha como livreiro em Havana. E esse seu novo ofício, em busca de livros raros e valiosos, o leva mais uma vez aos casos policiais.

A partir de alguns acontecimentos ele resgata sua faceta detetivesca e inicia uma busca para desvendar o destino de uma cantora cubana dos anos 1950, a bolerista Violeta Del Rio.

Mergulhamos nas noites de um passado glorioso de Havana, ouvimos jazz, bolero e os grupos musicais cubanos da época. Também penetramos no universo dos livros raros cubanos, livros que tratam do passado da ilha e de suas raízes coloniais hispânicas.

O passado é o personagem central dessa história. É ele que faz mover todas as peças dessa trama, que assombra e dá sentido ao que os personagens deixaram para trás e ao que buscam no presente.

Quem matou Roland Barthes?

Em 25 de fevereiro de 1980,Roland Barthes ao sair de um almoço com o futuro presidente francês François Mitterrand, foi atropelado por um automóvel.  O acidente aconteceu quando atravessava a calçada em frente ao prédio onde lecionava, o Collège de France. Ficou no hospital por um mês, vindo a falecer aos 64 anos, no dia 26 de março de 1980.

A partir desse fato real, o escritor Roland Binet inicia sua ficção, parte desse acidente e cria uma história cujos personagens são a intelectualidade francesa da década de 1980. Na trama ficcional, após o atropelamento de Barthes surge a suspeita de que haveria um motivo para assassiná-lo e que, portanto, não teria sido um mero acidente mas algo premeditado. O detetive Jacques Bayard inicia uma busca para desvendar quem teria praticado esse crime, mas como não conhece nada do universo intelectual pede um auxílio para o jovem professor Simon Herzog, que o acompanha numa longa e rocambolesca investigação.

Quem matou Roland Barthes? é um livro para iniciados, para quem conhece um pouco da teoria semiológica, para quem leu Roland Barthes e teve contato com suas teorias sobre a linguagem e para quem já se embrenhou pelo universo intelectual francês.

Barthes era crítico literário, filósofo, escritor. Diziam que era solitário e melancólico. No mundo intelectual fez muitas amizades e inimizades. É nesse cenário que Binet cria sua trama, transformando o atropelamento de Barthes num caso de polícia. Ele elabora as falas e intrigas dos personagens a partir das teorias da linguística, entre elas, a de Roman Jakobson (1896-1982), que descreveu seis funções para os atos de comunicação: denotativa, emotiva, conotativa, fática, metalinguística e poética.

A suspeita a respeito das circunstâncias desse acidente é de que Barthes tenha sido assassinado por conta da recém criada sétima função da linguagem. Nessa função a fala ou a linguagem seria capaz de promover a ação direta do outro. A sétima função, motivo do crime, levaria a quem tivesse seu domínio a ser dono do mundo. “Sua força não teria nenhum limite. Poderia ser eleito em todas as eleições, arregimentar as massas, provocar revoluções, seduzir todas as mulheres, vender todos os produtos inimagináveis, construir impérios, fazer falcatruas com a terra inteira, obter tudo o que quisesse em qualquer circunstância” (P.212).

Durante a investigação são interrogados Foucault, Deleuze, Althusser, Umberto Eco, entre muitos outros intelectuais que estavam no auge de suas carreiras na década de 1980. Há cenas e falas muito inusitadas e engraçadas, que nos levam para esse universo dos filósofos, linguístas e historiadores da França de 1980.

 

 

A Misteriosa Chama da Rainha Loana

Yambo está com 60 anos, é um aficionado por livros e livreiro por profissão. Depois de um acidente, acorda no hospital e não se lembra de seu passado, a única memória que resta são histórias e personagens que leu nos livros. Recorda-se das aventuras de Dom Quixote, da vida de Charles Swan, de Em Busca do Tempo Perdido. Sabe das guerras, de Napoleão, de Tomás de Aquino, ou seja, lembra de tudo que leu nos livros. Tem agora uma memória de papel ou memórias ficcionais.

Acompanhamos Yambo numa busca ao passado, na tentativa de entrar na “caverna” da memória e conseguir recordar de seus próprios feitos. Nesse percurso nos divertimos com as memórias dos personagens ficcionais e com as confusões de Yambo entre ficção e vida real.  Como também nos angustiamos junto com ele ao não conseguir saber quem ele é, quem são as pessoas a sua volta, qual a relação que teve com elas, não conseguir identificar quais histórias fazem parte da sua vida.

Quando o personagem folheia o livro  de Santo Agostinho, “Confissões”, com páginas sublinhadas, sendo um sinal de que ele deve ter lido algum dia, Yambo cita trechos de reflexões de Agostinho sobre a memória: “Chego então aos campos e aos vastos palácios da memória, quando estou lá evoco todas as memórias que quero, algumas se apresentam de imediato, outras se fazem desejar mais longamente, sendo quase que arrancadas dos escaninhos mais secretos… Todas essas coisas a memória acolhe em sua vasta caverna, em suas sinuosidades secretas e inefáveis, no enorme palácio da minha memória recebo o céu, a terra e o mar juntos, lá me encontro a mim mesmo…”

O livro de Umberto Eco é uma reflexão sobre a memória individual e a memória coletiva, sobre o lembrar e o esquecer, e sobre os significados de nossas recordações.

Com o objetivo de entrar nessa caverna da memória, Yambo se aloja por algum tempo no sótão da casa do seu avô, aonde estão seus livros da infância e da juventude. Entra numa viagem de volta ao passado através dos personagens literários, das ilustrações dos livros e revistas que estão ali guardados há anos. Muitas dessas imagens são apresentadas para nós pelas ilustrações, que remetem às figuras que ele vai identificando durante suas leituras.

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Sherlock Holmes, personagem de Arthur Conan Doyle

A erudição de Umberto Eco e sua paixão pelos livros, com inúmeras citações de literatos, filósofos,  quadrinistas, entre tantos outros, contribui para que seja uma viagem para nós leitores, visitando livros, histórias e personagens e nos instigando à novas leituras.