A Neblina do Passado

Mais um livro do cubano Leonardo Padura, leitura extremamente prazerosa.
Nessa história o detetive Mario Conde, já não é mais um policial, mas trabalha como livreiro em Havana. E esse seu novo ofício, em busca de livros raros e valiosos, o leva mais uma vez aos casos policiais.

A partir de alguns acontecimentos ele resgata sua faceta detetivesca e inicia uma busca para desvendar o destino de uma cantora cubana dos anos 1950, a bolerista Violeta Del Rio.

Mergulhamos nas noites de um passado glorioso de Havana, ouvimos jazz, bolero e os grupos musicais cubanos da época. Também penetramos no universo dos livros raros cubanos, livros que tratam do passado da ilha e de suas raízes coloniais hispânicas.

O passado é o personagem central dessa história. É ele que faz mover todas as peças dessa trama, que assombra e dá sentido ao que os personagens deixaram para trás e ao que buscam no presente.

Arte e Liberdade

Nessa primavera de 2017, tem sido intenso o debate sobre as expressões artísticas e seus significados estéticos, filosóficos e éticos. Isso porque uma série de acontecimentos, envolvendo a proibição de determinados espetáculos, exposições e peças teatrais, trouxe de volta o tema da censura, algo que parecia para nós brasileiros já estar engavetado num passado, não tão longínquo, mas já distante. Entretanto, em nome da ética e dos bons costumes setores da sociedade civil, políticos e grupos religiosos estão reivindicando atos de proibição às expressões artísticas que expõe o corpo ou tematizam questões de gênero e sexualidade.

Essas questões foram debatidas de diversos pontos de vista: o nu da História da Arte; a sexualidade na sociedade contemporânea, os cuidados com a criança, questões jurídicas  e a condenação de atos de  censura .

Lendo hoje “Hereges” de Leonardo Padura, livro no qual a questão da arte também está presente, considero que um ponto crucial de tudo isso é a tão desacreditada, em nossos tempos, palavra liberdade, o que está em jogo é a liberdade de nos expressarmos com a temática e o formato que considerarmos mais adequados para nossas criações. Não importa se é belo, grotesco, feio. Não é a estética que está  em debate nesses casos de proibições e manifestos contrários a determinadas obras.

Citando o personagem de Padura: “Para um artista, todos os compromissos são um peso: com sua Igreja, com um grupo político, até com seu país. Eles reduzem seu espaço de liberdade, e sem liberdade não há arte”.

Nesse sentido, é em nome da liberdade que essas expressões artísticas devem ter a garantia de continuarem existindo e de conviverem com o público.

Estações Havana

Recentemente Leonardo Padura esteve no Brasil, em novembro de 2016, quando foi lançada a caixa Estações Havana, pela Boitempo Editorial. A caixa é composta da reedição de quatro histórias “Passado Perfeito”, “Ventos de Quaresma” e “Máscaras” e mais a inédita tradução “Paisagem de Outono”.

Nessa mesma ocasião Leonardo Padura deu um curso intitulado “Para que se escreve um romance” no qual ele abordou aspectos históricos e estéticos da escrita desse gênero da literatura e falou das suas próprias peculiaridades ao criar os personagens de suas histórias.

Um dos autores tratados na ocasião desse curso foi Milan Kundera, na obra “A arte do romance”, publicado pela Companhia das Letras. Nesse libro no qual ele analisa aspectos do romance nos tempos modernos ele diz:

“Quando Deus deixava lentamente o lugar de onde tinha dirigido o universo e sua odem de valores, separa o bem e o mal e dera um senido a cada coisa, Dom Quixote saiu de sua casa e não teve mais condições de reconhecer o mundo. Este, na ausência do Juiz supremo, surgiu subitamente numa temível ambiguidade; a única Verdade divina se decompôs em centenas de verdades relativas que os homens dividiram entre si. Assim, o mundo dos tempos modernos nasceu e, com ele, o romance, sua imagem e modelo.
(…)
Compreender com Cervantes o mundo como ambiguidade, ter de enfrentar, em vez de uma só verdade absoluta, muitas verdades relativas que se contradizem (verdades incorporadas em egos imaginários chamados personagens), ter portanto como única certeza a sabedoria da incerteza, isso exige muita força”

É na incerteza e na ambiguidade que está a força e a importância do romance até nossos dias.