Hereges

“Hereges” do escritor cubano Leonardo Padura trata da questão dos Judeus em dois momentos e espaços históricos: em Cuba, durante a Segunda Guerra Mundial e em Amsterdã, no século XVII. O escritor narra as perseguições e preconceitos que atingiram desde sempre esse povo.

O livro traz à tona acontecimentos esquecidos a respeito dos imigrantes judeus originários da Polônia, que tentaram desembarcar no porto cubano em 1939, sendo recusado o desembarque pelas autoridades locais. Além desse fato, entramos em contato com a vida dos judeus em Cuba, nesse mesmo período, seus problemas, conflitos e prazeres na cidade que ainda não vivia o regime comunista.

A pesquisa de Padura a respeito dos judeus é minuciosa, retrocedendo até o século XVII quando Amsterdã, na Holanda, abrigava uma enorme comunidade judaica.

O enredo do romance tem como elemento central um quadro do pintor Rembrandt, no qual está retratado um Cristo, de forma realista, tendo sido utilizado como modelo um jovem judeu. Essa obra trouxe consequências a todos os envolvidos, tanto para aqueles que participaram da sua confecção, como para aqueles que a adquiriram como obra de arte.

Várias questões são colocadas em discussão nesse romance de Padura, além da própria questão dos Judeus, temas como Liberdade, Religião e Arte são explorados na narrativa.

Arte e Liberdade

Nessa primavera de 2017, tem sido intenso o debate sobre as expressões artísticas e seus significados estéticos, filosóficos e éticos. Isso porque uma série de acontecimentos, envolvendo a proibição de determinados espetáculos, exposições e peças teatrais, trouxe de volta o tema da censura, algo que parecia para nós brasileiros já estar engavetado num passado, não tão longínquo, mas já distante. Entretanto, em nome da ética e dos bons costumes setores da sociedade civil, políticos e grupos religiosos estão reivindicando atos de proibição às expressões artísticas que expõe o corpo ou tematizam questões de gênero e sexualidade.

Essas questões foram debatidas de diversos pontos de vista: o nu da História da Arte; a sexualidade na sociedade contemporânea, os cuidados com a criança, questões jurídicas  e a condenação de atos de  censura .

Lendo hoje “Hereges” de Leonardo Padura, livro no qual a questão da arte também está presente, considero que um ponto crucial de tudo isso é a tão desacreditada, em nossos tempos, palavra liberdade, o que está em jogo é a liberdade de nos expressarmos com a temática e o formato que considerarmos mais adequados para nossas criações. Não importa se é belo, grotesco, feio. Não é a estética que está  em debate nesses casos de proibições e manifestos contrários a determinadas obras.

Citando o personagem de Padura: “Para um artista, todos os compromissos são um peso: com sua Igreja, com um grupo político, até com seu país. Eles reduzem seu espaço de liberdade, e sem liberdade não há arte”.

Nesse sentido, é em nome da liberdade que essas expressões artísticas devem ter a garantia de continuarem existindo e de conviverem com o público.

Livro de Artista

Há alguns anos entrevistei para uma pesquisa de mestrado, a artista plástica Anésia Pacheco e Chaves, que a partir dos anos 1970 realizou uma série de trabalhos explorando os objetos caderno e livro. Nessa entrevista, ela me deu um dos seus livros que apresentava uma série de obras da sua autoria, na vertente chamada de Livro de Artista.

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Lembro que na época adorei seu trabalho, que explorava o papel, as texturas, e o que há de artesanal no livro. Era uma série que transformava o objeto livro em livro arte, com desenhos, colagens, palavras e imagens. Seus trabalhos exploravam também o objeto caderno, que segundo ela remete às experiências do universo feminino, como por exemplo o ato de escrever diários.

Livro Arte e Caderno Arte são exemplos de como traduzir objetos do universo da escrita para o da sensorialidade.

Kelmscott Press

Kelmscott Press foi uma editora de livros de William Morris – designer, escritor e ativista – criada em 1891 na cidade de Londres. Foi uma editora cultuada por editores e designers, pelos tipos de letras que criou, pelo design, pelo papel selecionado e pela preocupação com as ilustrações e decorações nas bordas dos livros. Ela funcionou até 1898 e fez parte do “Movimento das Arts e Ofícios (Arts and Crafts)”, que defendia a utilização do artesanato frente à intensa mecanização e industrialização que ocorria na Inglaterra nesse período.

Para Morris, os livros de seu tempo eram sintomáticos das deficiências da sociedade industrial moderna: eram feias, mal feitas e produzidas em massa. Sua visão para a Kelmscott voltou-se para os tradicionais manuscritos da Idade Média e dos primeiros livros impressos. Como resultado, os livros da Kelmscott Press pareciam ao mesmo tempo antiquários na aparência e uma encarnação da arte e do artesanato defendido através de seus projetos.