A Transparência do Tempo

Em a “Transparência do Tempo”, de Leonardo Padura, o detetive Mario Conde volta aos seus tempos de investigador para ajudar um amigo que teve um objeto familiar roubado. Trata-se de uma obra de arte, uma virgem negra medieval, que por motivos dos tempos passados foi parar em Cuba e, até o ano de 2014, estava secretamente resguardada de possíveis agentes do mercado de arte.

Nessa narrativa, mais uma vez Padura percorre diferentes tempos históricos, revivendo acontecimentos do período das Cruzadas, criando personagens e cenários medievais a partir de uma exaustiva pesquisa. Também nos apresenta as peculiaridades da vida em Cuba de 2014 e nos introduz novamente entre os amigos de Mário Conde que sempre estão presentes em suas histórias imaginadas.

Sempre que leio Leonardo Padura eu sinto uma pequena inveja das suas habilidades em criar personagens com personalidades marcantes e que gostaríamos de poder encontrar a qualquer momento na rua, cumprimentar, conversar e tomar um café. Esses personagens, por alguns dias, tornam-se nossos companheiros e permanecem para sempre na nossa memória afetiva.

Em um determinado momento do livro, Padura comenta sobre a criação desses personagens e histórias, sobre o ato de criação e se pergunta: “Isso é escrever? Transformar-se em outro? Renunciar-se a si mesmo em favor do criado? Tentar recompor o que não tem desígnio prévio possível, e transformá-lo numa criação mais benévola e lógica, de certo modo menos humana e por isso mesmo mais satisfatória? Brincar de ser livre? Até mesmo ser livre?

Eu gostaria de ter essa possibilidade, por um momento ao menos, de ser livre como Leonardo Padura e dar vida a um personagem tão afetivo quanto é Mario Conde.

Personagens

Tem algo mais incrível do que dar vida a uma personagem? Criar uma personalidade, dar-lhe uma infância, acompanhar suas angústias e seus caminhos durante um período da vida que inventaram para ela. Acho isso fantástico!

Alguns personagens são muito preciosos para mim, um deles é Mario Conde, o detetive criado por Leonardo Padura, e que está presente em quase todos os seus livros. Acompanho esse detetive já há algum tempo, gosto das músicas que ele ouve, dos livros que ele lê, converso com seus amigos moradores tradicionais de Havana, saboreio as receitas da culinária cubana que são descritas em muitas das suas histórias e por fim, me solidarizo com suas aventuras e desventuras.

O escritor Philip Roth também tem um personagem presente em muitos dos seus livros. É o escritor Nathan Zuckerman, nomeado por alguns como o alter ego de Roth. Entretanto, ele é mais do que isso, ele é criação literária e deve não se parecer em nada com o autor, a não ser pelo fato de ser também um escritor. No livro Pastoral Americana, o personagem Nathan comenta sobre o processo de criação de uma personagem. Nathan Zuckerman começa a escrever um livro sobre um jogador de beisebol chamado de Sueco. Esse jogador foi seu amigo de infância, depois ele ficou muito tempo sem vê-lo, começou então uma pesquisa em jornais e arquivos sobre ele para poder falar sobre sua vida. Nathan faz um comentário sobre esse processo de criação que vale a pena transcrever: “pensar no Sueco por seis, oito, às vezes dez horas seguidas, trocar a minha solidão pela dele, habitar essa pessoa em tudo diferente de mim, desaparecer dentro dele, tentar dia e noite avaliar uma pessoa aparentemente vazia, inocente e simples, mapear a sua debacle, torna-lo com o passar do tempo, a figura mais importante da minha vida…”. ���³*ic�

Complô contra América

Esse livro de Philip Roth é uma ficção criada a partir de fatos históricos reais dos Estados Unidos da década de 1940. Roth cria uma situação na qual Charles Lindbergh, que de fato foi um piloto da aviação estadunidense, teria sido eleito presidente dos Estados Unidos no período da II Guerra Mundial, deixando para trás seu concorrente Franklin Delano Roosevelt, que de fato foi presidente dos Estados Unidos de 1933 a 1945.

O aviador Lindbergh era simpatizante do nazismo, esteve em Berlim nos Jogos Olímpicos ao lado de Hitler e defendia a neutralidade americana na guerra de 1945. Na ficção de Roth, os Estados Unidos sob a liderança do aviador, se aproximam das ideias proclamadas por Hitler e os judeus americanos se vêem ameaçados diante de uma possível perseguição.

A ascensão da direita fascista causa uma mudança na rotina das famílias, nas relações que se estabelecem entre os judeus e os demais cidadãos americanos, causando uma série de transformações que afetam a vida de todos.

A pesquisa histórica de Philip Roth para poder criar essa ficção é rigorosa, e é muito interessante ler esse livro hoje, no qual vemos a ascensão da direita e de um ideário autoritário em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Acabamos por identificar as artimanhas de determinados líderes políticos, a percebermos a necessidade de sempre se eleger um inimigo público e a compreendermos os medos pelos quais passam a assombrar aqueles que não compartilham dos mesmos princípios postulados por quem assaltou o poder.

Leitura mais do que recomendada!

O Fantasma sai de Cena

Esse é o primeiro livro do escritor americano Philip Roth que eu leio. Roth nasceu em 1933 e faleceu no ano passado, 2018. Na ocasião da sua morte várias matérias foram publicadas sobre sua obra e foi daí que surgiu meu interesse em ler seus livros.

Em o “Fantasma sai de Cena” um escritor já velho, depara-se com as limitações físicas impostas pela idade. Ele sofre de uma incontinência urinária, e por isso, faz uma viagem para New York, saindo do vilarejo onde escolheu para morar nos últimos anos.

Nessa viagem toma contato com pessoas do seu passado, com desejos adormecidos, com as angustias da velhice e os temores da aproximação da morte.

Gostei da forma como Roth narra a história, como nos apresenta as personagens e das observações que faz da conjuntura política e social da sociedade americana.

Com certeza, esse foi só o primeiro, já escolhi quais serão os próximos desse escritor que lerei em breve.

Voragem

Voragem foi escrito por Junichiro Tanizaki na década de 1920. Trata-se da história de um triângulo amoroso, entre Sonoko, seu marido Kakiuchi e a amiga Mitsuko. Esses três personagens se envolvem numa trama desencadeada pela amizade entre Sonoko e Mitsuko, que se conhecem numa escola de pintura e desenho. Essa aproximação das duas mulheres vai se intensificando e se transforma numa relação amorosa, profundamente apaixonada.

Sonoko aos poucos torna-se obsessiva por Mitsuko, atraída por sua beleza. Essa obsessão aos poucos vai envolvendo marido, namorado e familiares, numa trama envolvente, cheia de peripécias e imprevistos, contada em primeira pessoa pela própria Sonoko. O leitor é também enredado por essa história que termina tragicamente.

Tanizaki é considerado um dos maiores escritores japoneses, sua obra nos permite entrar em contato com a literatura daquele país, assim como conhecermos aspectos da cultura do Japão naquele período como a relação entre mulheres e homens, a condição feminina e a temática da homossexualidade.

A Neblina do Passado

Mais um livro do cubano Leonardo Padura, leitura extremamente prazerosa.
Nessa história o detetive Mario Conde, já não é mais um policial, mas trabalha como livreiro em Havana. E esse seu novo ofício, em busca de livros raros e valiosos, o leva mais uma vez aos casos policiais.

A partir de alguns acontecimentos ele resgata sua faceta detetivesca e inicia uma busca para desvendar o destino de uma cantora cubana dos anos 1950, a bolerista Violeta Del Rio.

Mergulhamos nas noites de um passado glorioso de Havana, ouvimos jazz, bolero e os grupos musicais cubanos da época. Também penetramos no universo dos livros raros cubanos, livros que tratam do passado da ilha e de suas raízes coloniais hispânicas.

O passado é o personagem central dessa história. É ele que faz mover todas as peças dessa trama, que assombra e dá sentido ao que os personagens deixaram para trás e ao que buscam no presente.

O Alforje

Bahiyyih, autora do livro “O Alforje”, nasceu no Irã em 1948, mas migrou ainda jovem para fora do país, vivendo hoje na Inglaterra.

Nesse livro, a escritora conta a mesma história a partir de diferentes perspectivas. Em cada capítulo um personagem nos relata os mesmos acontecimentos, apontando novos detalhes, sentimentos e versões diversas dos fatos. A cada capítulo mudamos nossas opiniões sobre a história e relativizamos as atitudes dos personagens.

“O lugar, o tempo, os eventos do dia e da noite são os mesmos em “O Alforje”, mas todos os personagens leem o enredo de maneira diferente. Tão logo reconhecemos diferenças como expressão não de limitação, mas de riqueza e de variedade, podemos sentir pelos personagens, nos sentimos atraídos por eles mesmo que sejam corruptos”.(Bahiyyth Nakhjavani)

“O Alforje” tem uma linguagem poética e nos aproxima de uma cultura que pouco conhecemos, nos leva para o deserto do Oriente Médio, em meados do século XIX, no caminho entre Meca e Medina.

Darwinismo, Raça e Gênero

O livro, “Darwinismo, raça e gênero: projetos modernizadores da nação em conferências e cursos públicos (Rio de Janeiro, 1870 – 1889), é resultado de uma tese de doutorado realizada na História Social da USP, em 2012.

Karoline Carula pesquisou espaços públicos onde eram proferidas conferências e realizados cursos,  na cidade do Rio de Janeiro durante o Império, entre 1870 e 1889: Conferências Populares da Glória, cursos Públicos do Museu Nacional e conferências “Avulsas”.

Nesse período o contexto social e político tornava premente discutir os temas relacionados aos negros, índios e às mulheres, na perspectiva dos projetos de modernização para o país. A partir de  1850, houve o fim do tráfico de escravos, gerando uma série de discussões sobre a situação do mercado de trabalho. Em 1871, foi promulgada a “Lei do Ventre Livre”, aumentado a necessidade de se pensar numa alternativa para a mão de obra, principalmente nas lavouras, aparecendo a imigração europeia e asiática como possível alternativa. E em 1870 o “Manisfesto Republicano” trouxe novas ideias a respeito do sistema político e da participação nas novas camadas médias urbanas.

As conferências públicas eram eventos de difusão científica, que agradavam uma parcela da camada letrada da sociedade carioca, que comparecia para adquirir conhecimentos em determinados assuntos, e sobretudo para manter relações de sociabilidade, reafirmando os lugares sociais de cada participante. Participavam ministros, médicos, jornalistas, estudantes, professores, médicos, advogados, engenheiros e a própria família real. Algumas mulheres também participavam, o que era visto como sinal de uma sociabilidade moderna e burguesa, antenada com os países mais avançados.

Nesses encontros as exposições dos oradores denotavam um discurso científico/cientificista, que servia de argumento para os projetos modernizadores da nação. Esses discursos se pautavam pela aplicação das teorias evolucionistas de Darwin para a sociedade e pela hierarquização racial e defendiam a educação da mulher para ser uma boa mãe. Civilizar e educar a população eram missões postas para o Império brasileiro, a fim de instruir negros, índios, mestiços, brancos pobres e as mulheres e assim acabar com os conflitos sociais e europeizar o Brasil.

A racialização da humanidade foi tema de muitas conferências públicas, hierarquizando a sociedade em termos raciais. As questões em torno da mestiçagem, do branqueamento da população e das dificuldades com os povos indígenas estavam presentes, a partir das teorias biológicas de Darwin, que foram apropriadas e ressignificadas para fins sociais.

A mulher foi tema de algumas conferências, visando instruí-las para serem boas mães e esposas, a partir dos preceitos da higiene e da medicina. O comparecimento das mulheres como espectadoras dessas conferências era pequeno, mas estimulado, para que elas pudessem desempenhar um papel melhor na sociedade. Entretanto a participação feminina como oradoras já não era encorajada, já que entre 1870 e 1889, apenas duas mulheres proferiram conferências.

A pesquisa de Karoline Carula é fundamental para refletirmos sobre a sociedade brasileira, pois revela a origem de muitas concepções que estiveram presentes na  no século XIX e que permaneceram ainda no século seguinte. Revela ainda a origem de, determinados preconceitos com relação aos negros e índios, que embasaram e permanecem até hoje sustentando,  determinadas visões e ações políticas em relação a esses grupos sociais. Por fim, é interessante perceber o papel atribuído à mulher nessas conferências, como objeto também a ser instruído ou civilizado, submetido exclusivamente aos determinantes da maternidade.

Quem matou Roland Barthes?

Em 25 de fevereiro de 1980,Roland Barthes ao sair de um almoço com o futuro presidente francês François Mitterrand, foi atropelado por um automóvel.  O acidente aconteceu quando atravessava a calçada em frente ao prédio onde lecionava, o Collège de France. Ficou no hospital por um mês, vindo a falecer aos 64 anos, no dia 26 de março de 1980.

A partir desse fato real, o escritor Roland Binet inicia sua ficção, parte desse acidente e cria uma história cujos personagens são a intelectualidade francesa da década de 1980. Na trama ficcional, após o atropelamento de Barthes surge a suspeita de que haveria um motivo para assassiná-lo e que, portanto, não teria sido um mero acidente mas algo premeditado. O detetive Jacques Bayard inicia uma busca para desvendar quem teria praticado esse crime, mas como não conhece nada do universo intelectual pede um auxílio para o jovem professor Simon Herzog, que o acompanha numa longa e rocambolesca investigação.

Quem matou Roland Barthes? é um livro para iniciados, para quem conhece um pouco da teoria semiológica, para quem leu Roland Barthes e teve contato com suas teorias sobre a linguagem e para quem já se embrenhou pelo universo intelectual francês.

Barthes era crítico literário, filósofo, escritor. Diziam que era solitário e melancólico. No mundo intelectual fez muitas amizades e inimizades. É nesse cenário que Binet cria sua trama, transformando o atropelamento de Barthes num caso de polícia. Ele elabora as falas e intrigas dos personagens a partir das teorias da linguística, entre elas, a de Roman Jakobson (1896-1982), que descreveu seis funções para os atos de comunicação: denotativa, emotiva, conotativa, fática, metalinguística e poética.

A suspeita a respeito das circunstâncias desse acidente é de que Barthes tenha sido assassinado por conta da recém criada sétima função da linguagem. Nessa função a fala ou a linguagem seria capaz de promover a ação direta do outro. A sétima função, motivo do crime, levaria a quem tivesse seu domínio a ser dono do mundo. “Sua força não teria nenhum limite. Poderia ser eleito em todas as eleições, arregimentar as massas, provocar revoluções, seduzir todas as mulheres, vender todos os produtos inimagináveis, construir impérios, fazer falcatruas com a terra inteira, obter tudo o que quisesse em qualquer circunstância” (P.212).

Durante a investigação são interrogados Foucault, Deleuze, Althusser, Umberto Eco, entre muitos outros intelectuais que estavam no auge de suas carreiras na década de 1980. Há cenas e falas muito inusitadas e engraçadas, que nos levam para esse universo dos filósofos, linguístas e historiadores da França de 1980.