Sul da Fronteira, oeste do sol

Recentemente tive a oportunidade de ler um autor que eu ainda não conhecia. E me encantei muito com o que eu li. O escritor é Haruki Murakami, nascido no Japão, em Quioto, em 1949.

O título do livro “Sul da Fronteira, oeste do sol” é uma referência a música, ouvida pelo protagonista da história, chamado Hajime, um homem nascido em 1951, filho único, que passou sua infância e adolescência de forma bastante solitária.

Com uma escrita primorosa, Murakami aborda os conflitos existenciais desse personagem, desde sua adolescência até a sua vida adulta. Não à toa, a imagem recorrente do personagem é o deserto, a paisagem que melhor representa a solidão vivida por Hajime.

“Tudo vai desaparecer”, pensei. Algumas coisas desaparecem de uma vez, numa ruptura clara. Outras levam tempo, vão ficando cada vez mais difusas até desaparecerem por completo. ‘E no fim sobra apenas o deserto’.” (Hajime)

Hajime tinha um gosto especial pela música, que aparece de forma intensa na narrativa. O acompanha também os encontros com as personagens femininas que marcaram sua vida. Quando adolescente, conheceu Shimamoto, passavam as tardes na casa dela ouvindo antigos discos de vinil. Mais tarde, Hajime será dono de dois restaurantes que terão como atração principal a música, especialmente o Jazz. Esse é um aspecto autobiográfico, pois Murakami e sua mulher foram donos de uma casa de Jazz em Tókio, que se chamava Peter Cat, funcionou até a década de 1980.

A escrita de Murakami segue o ritmo e os compassos do jazz. É uma narrativa que foge da velocidade insensata do mundo contemporâneo. Uma escrita atenta aos detalhes, aos pequenos gestos do cotidiano e aos eventos inesperados que podem mudar nossos destinos.

Darwinismo, Raça e Gênero

O livro, “Darwinismo, raça e gênero: projetos modernizadores da nação em conferências e cursos públicos (Rio de Janeiro, 1870 – 1889), é resultado de uma tese de doutorado realizada na História Social da USP, em 2012.

Karoline Carula pesquisou espaços públicos onde eram proferidas conferências e realizados cursos,  na cidade do Rio de Janeiro durante o Império, entre 1870 e 1889: Conferências Populares da Glória, cursos Públicos do Museu Nacional e conferências “Avulsas”.

Nesse período o contexto social e político tornava premente discutir os temas relacionados aos negros, índios e às mulheres, na perspectiva dos projetos de modernização para o país. A partir de  1850, houve o fim do tráfico de escravos, gerando uma série de discussões sobre a situação do mercado de trabalho. Em 1871, foi promulgada a “Lei do Ventre Livre”, aumentado a necessidade de se pensar numa alternativa para a mão de obra, principalmente nas lavouras, aparecendo a imigração europeia e asiática como possível alternativa. E em 1870 o “Manisfesto Republicano” trouxe novas ideias a respeito do sistema político e da participação nas novas camadas médias urbanas.

As conferências públicas eram eventos de difusão científica, que agradavam uma parcela da camada letrada da sociedade carioca, que comparecia para adquirir conhecimentos em determinados assuntos, e sobretudo para manter relações de sociabilidade, reafirmando os lugares sociais de cada participante. Participavam ministros, médicos, jornalistas, estudantes, professores, médicos, advogados, engenheiros e a própria família real. Algumas mulheres também participavam, o que era visto como sinal de uma sociabilidade moderna e burguesa, antenada com os países mais avançados.

Nesses encontros as exposições dos oradores denotavam um discurso científico/cientificista, que servia de argumento para os projetos modernizadores da nação. Esses discursos se pautavam pela aplicação das teorias evolucionistas de Darwin para a sociedade e pela hierarquização racial e defendiam a educação da mulher para ser uma boa mãe. Civilizar e educar a população eram missões postas para o Império brasileiro, a fim de instruir negros, índios, mestiços, brancos pobres e as mulheres e assim acabar com os conflitos sociais e europeizar o Brasil.

A racialização da humanidade foi tema de muitas conferências públicas, hierarquizando a sociedade em termos raciais. As questões em torno da mestiçagem, do branqueamento da população e das dificuldades com os povos indígenas estavam presentes, a partir das teorias biológicas de Darwin, que foram apropriadas e ressignificadas para fins sociais.

A mulher foi tema de algumas conferências, visando instruí-las para serem boas mães e esposas, a partir dos preceitos da higiene e da medicina. O comparecimento das mulheres como espectadoras dessas conferências era pequeno, mas estimulado, para que elas pudessem desempenhar um papel melhor na sociedade. Entretanto a participação feminina como oradoras já não era encorajada, já que entre 1870 e 1889, apenas duas mulheres proferiram conferências.

A pesquisa de Karoline Carula é fundamental para refletirmos sobre a sociedade brasileira, pois revela a origem de muitas concepções que estiveram presentes na  no século XIX e que permaneceram ainda no século seguinte. Revela ainda a origem de, determinados preconceitos com relação aos negros e índios, que embasaram e permanecem até hoje sustentando,  determinadas visões e ações políticas em relação a esses grupos sociais. Por fim, é interessante perceber o papel atribuído à mulher nessas conferências, como objeto também a ser instruído ou civilizado, submetido exclusivamente aos determinantes da maternidade.

O que é um Livro?

O historiador João Adolfo Hansen publicou um texto que se chama “O que é um livro?”, no qual ele aborda questões sobre a história do livro, a materialidade do livro, as teorias da recepção, entre outros assuntos a respeito da complexa relação leitor e leitura.

Como o autor mesmo afirma, muitíssimas coisas já foram faladas sobre o livro, mas é sempre fascinante falar sobre ele a partir das múltiplas abordagens estéticas, filosóficas e históricas que esse objeto instiga. Ainda mais nesse momento, em que as tecnologias digitais provocam transformações na forma do livro, que perde sua materialidade, e na relação que os leitores estabelecem com a leitura, mais breve e efêmera.

Mas o que é um livro? ” Começo com o óbvio: o livro não é um objeto natural, mas artificial, material e simbólico. Como objeto artificial é mercadoria, produto acabado de vários processos intelectuais, técnicos e industriais; como objeto simbólico é texto, que pressupõe uma autoria, que o acabou como obra, e leitores que nunca acabam. Definitivamente acabado sob uma assinatura de autor, continua indefinidamente inacabável nas leitura que, na sociedade contemporânea, ainda pressupõem e reproduzem as normas dos regimes discursivos estabelecidos desde o Iluminismo, no século XVIII – ficção, ciência, religião, filosofia, história, direito, etc. – cada um deles com pressupostos epistemológicos, teóricos, críticos, doutrinários e procedimentos técnicos de escrita e leitura específicos”. (HANSEN, 2013)

Morte e Vida das Grandes Cidades

O livro “Morte e Vida das Grandes Cidades” foi publicado no ano 2000, nos Estados Unidos, e é de autoria Jane Jacobs. A autora faz uma crítica aos fundamentos do planejamento urbano tradicional, que ditavam regras tais como: a rua é um lugar ruim para os seres humanos; as casas devem estar afastadas dela e voltadas para dentro, para uma área verde cercada; o comércio deve ser separado das casas; as cidades devem resistir às mudanças. Essas ideias proferidas por urbanistas como Le Corbusier, entre outros, desde o final do século XIX, são reunidas por Jacobs e classificadas pelo “pressuposto da separação – e da obtenção da ordem por meio da repressão a quaisquer planos, menos dos urbanistas”.

Jabobs defende a ideia de que ruas vazias geram violência e insegurança, segundo o seu ponto de vista as ruas precisam ser ocupadas e quanto mais diversidade houver nessa ocupação, mais seguras elas serão. Segundo ela, uma rua movimentada consegue manter a segurança, uma rua deserta não.

Esses e outros pressupostos estão nesse livro, que apesar de já estar completando 17 anos de sua publicação continua sendo bastante atual para pensarmos as grandes cidades e romper com ideias que fazem parte do senso comum sobre o bem viver nelas.

Jane Jacobs não é arquiteta e nem urbanista, foi ativista e escritora e procurou analisar algumas cidades americanas através de uma etnografia jornalística, observando o movimento das cidades e o seu dia-a-dia com caminhadas pelos diversos bairros.

 

 

Arte com livros

O livro pode também ser suporte ou matéria para artistas visuais. Esse é o caso da escultora Valeska Soares (Belo Horizonte, 1957), que utilizou capas e livros para criar formas variadas. Essas formas permitem a construção de uma narrativa, a partir das escritas contidas nas capas. Tal narrativa é aleatória, cada observador irá fazer sua própria construção, dependendo das escolhas de leitura e de interação com a obra.

Antes da Queda

Na Flip 2011, a Granta anunciou um projeto que consistia em selecionar os 20 nomes de jovens autores brasileiros com menos de 40 anos, a coletânea foi lançada com o título “Os melhores jovens escritores brasileiros”. Um deles é João Paulo Cuenca, nascido no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior e é autor dos romances Corpo presente (Planeta, 2003), O dia Mastroianni (Agir, 2007) e O único final feliz para uma história de amor é um acidente (Companhia das Letras, 2010), publicado também em Portugal, na Espanha e na Alemanha. Em 2007, foi selecionado pelo Festival de Hay e pela organização do festival Bogotá Capital Mundial do Livro como um dos 39 autores mais destacados da América Latina com menos de 39 anos.

“Antes da queda”, que está nessa coletânea, faz parte do romance “Antes da Queda”, publicado em 2013. Nesse pequeno trecho do romance ele descreve as transformações da cidade do Rio de Janeiro e os efeitos dos processos de urbanização e modernização nas populações mais pobres da cidade. Aborda a gentrificação na cidade, as disparidades sociais entre as festas da “high society” e s tiroteios das favelas cariocas, as reformas para a Copa do Mundo e as Olímpiadas.

 

Francisco Dantas

Há pouco tempo conheci o escritor sergipano Francisco Dantas, numa noite de autógrafos e muito recomendado por um amigo. Francisco Dantas nasceu em 1941 e foi professor de português durante 30 anos na Universidade Federal de Sergipe. Seu romance de estréia é “Coivara da Memória”(1991), no qual a personagem relembra momentos da sua infância e descreve detalhadamente aspectos da cultura e do ambiente nordestino.