O que ela sussurra

“Se poemas fossem capazes de mudar o mundo, não seriam poemas, mas máquinas. Sua força está em sua incapacidade, seu movimento instantâneo de dúvida, um deslocamento de pálpebra, uma ausência despercebida que vem se instalar na alma de forma mais duradoura. Os vencedores sabem disso e por isso nos odeiam e nos temem, porque conhecem o perigo dos mínimos deslocamentos”.

A citação acima está no livro “O que ela sussurra” da escritora brasileira Noemi Jaffe, cuja personagem Nadejda Mandelstam (1899-1980) sussurra os medos e as angústias ao enfrentar o regime de Stálin. Ela e seu marido, Óssip Mandelstam(1891-1938), sofreram com a fome, as perseguições e os desmandos ditatoriais da Rússia pós revolução de 1917.

Óssip Mandelstam foi preso, torturado e morto pelo regime stalinista. Para que a obra, desse que foi um dos maiores poetas russos, não se perdesse diante da fúria destrutiva de Stálin, Nadejda sussurrava diariamente os poemas de seu marido, para que assim eles permanecessem em sua memória e ela pudesse um dia publicá-los.

Noemi Jaffe transforma essa trágica histórica, em uma poética reflexão sobre memória e o esquecimento, sobre o amor e o ódio, e sobretudo sobre a liberdade que a criação artística proporciona à humanidade. Nadejda manteve-se viva, no amplo sentido dessa palavra, pela e para a poesia.

“Assopro a lembrança, fuu, vai embora, mas ela volta. O passado é um cobertor rosa que não serve para cobrir nossos corpos. Sempre falta ou sobra uma parte e as memórias se contorcem, são como galhos semimortos presos a raízes parasitas, você e eu. O tempo ultrapassa nossos corpos, mas precisa se agarrar a eles, tomar seu tamanho e hoje cabe exatamente em mim, o passado fui eu que inventei.”

Memória

A cidade em que vivo guarda as cores da minha infância. O verde dos jardins, o laranja dos entardeceres, o vermelho dos semáforos.

A cidade em que vivo guarda os cheiros da minha juventude. A fuligem das ruas, o azedo dos bares, o mofo dos cinemas.

A cidade em que vivo guarda os sons da minha maturidade. O freio dos ônibus, o burburinho das calçadas, o tilintar dos cafés.

A cidade em que vivo guarda as imagens da minha memória. Cidade cinza, cidade apoética, cidade melancólica.

Que como uma caixa preta me revela a cada instante os meus dias vividos.

 

Cecília Dias

 

 

 

 

 

O