O Preço da Noiva

Buchi Emecheta foi uma escritora nigeriana, faleceu em 25 de janeiro de 2017. Buchi nasceu em 1944, em Lagos, mas foi criada em Ibuza, terra natal dos seus pais.

Suas histórias questionam a educação da mulher, sempre submissa às normas patriarcais, destinada à maternidade e proibida muitas vezes de continuar seus estudos para cuidar da casa e da família.

“Preço da Noiva” nos conta a história de Aku-nna, uma jovem menina que tinha sonhos de estudar e ir para a universidade. Mas quando seu pai morre, a família tem que se mudar de Lagos e ir para Ibuza, onde os costumes tradicionais eram bem mais rígidos com as mulheres. Sem escolha, as meninas não podiam ir para a escola depois de uma certa idade, deviam se casar com quem a família determinar e ter muitos filhos para honrar seu marido.

Apesar das marcantes diferenças culturais entre as sociedades tradicionais africanas e as tradições ocidentais, encontramos muitos pontos de contato em relação à opressão feminina e as posturas diversas em relação à educação de meninos e meninas. Percebemos ainda a fusão de tradições cristãs e africanas, mas que em nada aliviou a repressão sofrida pelas mulheres.

A escrita de Buchi Emecheta é muito sensível às opressões cotidianas que impedem muitas mulheres de seguirem seus desejos afetivos e profissionais. Sua narrativa nos sensibiliza com a dor vivida por suas personagens, sujeitas à uma violência familiar ancorada na naturalização da inferioridade feminina. Parece uma história distante no tempo e no espaço, mas está bem perto de nós.

O que ela sussurra

“Se poemas fossem capazes de mudar o mundo, não seriam poemas, mas máquinas. Sua força está em sua incapacidade, seu movimento instantâneo de dúvida, um deslocamento de pálpebra, uma ausência despercebida que vem se instalar na alma de forma mais duradoura. Os vencedores sabem disso e por isso nos odeiam e nos temem, porque conhecem o perigo dos mínimos deslocamentos”.

A citação acima está no livro “O que ela sussurra” da escritora brasileira Noemi Jaffe, cuja personagem Nadejda Mandelstam (1899-1980) sussurra os medos e as angústias ao enfrentar o regime de Stálin. Ela e seu marido, Óssip Mandelstam(1891-1938), sofreram com a fome, as perseguições e os desmandos ditatoriais da Rússia pós revolução de 1917.

Óssip Mandelstam foi preso, torturado e morto pelo regime stalinista. Para que a obra, desse que foi um dos maiores poetas russos, não se perdesse diante da fúria destrutiva de Stálin, Nadejda sussurrava diariamente os poemas de seu marido, para que assim eles permanecessem em sua memória e ela pudesse um dia publicá-los.

Noemi Jaffe transforma essa trágica histórica, em uma poética reflexão sobre memória e o esquecimento, sobre o amor e o ódio, e sobretudo sobre a liberdade que a criação artística proporciona à humanidade. Nadejda manteve-se viva, no amplo sentido dessa palavra, pela e para a poesia.

“Assopro a lembrança, fuu, vai embora, mas ela volta. O passado é um cobertor rosa que não serve para cobrir nossos corpos. Sempre falta ou sobra uma parte e as memórias se contorcem, são como galhos semimortos presos a raízes parasitas, você e eu. O tempo ultrapassa nossos corpos, mas precisa se agarrar a eles, tomar seu tamanho e hoje cabe exatamente em mim, o passado fui eu que inventei.”

A autobiografia de Alice B. Toklas

Gertrude Stein nasceu em 1874, nos Estados Unidos, no estado da Pensilvânia. Mas viveu boa parte de sua vida em Paris. Foi escritora, modernista e feminista, e conviveu com vários intelectuais e artistas entre as décadas de 1910 e 1940. Escreveu uma obra intitulada “A Autobiografia de Alice B. Toklas”. Alice era sua secretária e amante, com quem viveu durante 25 anos. A autobiografia revela as configurações de gênero e como elas se reproduziam entre as duas: enquanto Gertrude Stein se sentava com os homens escritores e artistas, Alice conversava com as mulheres dos artistas.

A sociedade parisiense, do início do século XX, reunia muitos artistas e intelectuais. A casa de Gertrude Stein era frequentada por Pablo Picasso, Matisse, Apolinaire, Erza Pound, Ernst Hemingay, James Joyce entre outros.  Alice fazia muitos jantares e até publicou um livro chamado “A cozinha de Alice B.Toklas”, com as receitas dos pratos que ela servia nessas ocasiões. Picasso foi  grande amigo de Gertrude Stein, frequentavam as casas de um e de outro. Ela posou para ele durante horas e dias. E ele pintou seu retrato.

A autobiografia de Alice B. Toklas é um livro fundamental da vanguarda modernista do século XX. O livro mostra como jovens artistas vindos de diversas partes do mundo, se encontravam em Paris e ali  traçaram novos caminhos para a Arte. Embora tenha sido escrito por Gertrude Stein, o livro é narrado do ponto de vista de Alice.

Durante a primeira guerra elas se inscreveram na FAFF, um Fundo de Amparo aos soldados norte-americanos. Percorreram várias cidades francesas como voluntárias desse serviço. Após a guerra, elas continuaram encontrando artistas e intelectuais que ainda estavam em Paris e outros que acabavam de chegar. Em 19 de julho de 1946, Gertrude Stein recebeu o diagnóstico de um câncer de útero, faleceu no dia 27.

No livro são mencionados os momentos em que Stein escrevia seus livros e Alice fazia a revisão, como quando Stein escreveu “O modo de ser dos americanos” (1908) e “Três Vidas” (1909). Gertrude Stein escreveu muitos livros, peças teatrais, poesias e um roteiro para o cinema. Escreveu também uma ópera chamada “Four Saints”, musicada pelo russo Virgil Thonson, seu amigo pessoal.

A Vida Invisível

O livro de Marta Batalha, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, foi adaptado para o cinema e o filme dirigido por Karim Ainouz.  Ainda não assisti ao filme, mas acabei de ler o livro. E adorei!

A história poderia ser escrita pela minha avó, pela minha mãe, minha tia, ou tantas outras mulheres que viveram num passado bem recente. As opressões cotidianas sofridas pelas mulheres frente à sociedade patriarcal aparecem nas personagens femininas dessa narrativa. Muitas vezes, lendo o livro, eu me lembrei de situações narradas pelas mulheres da minha família. São histórias muito próximas, de um universo conhecido. Opressões ainda vivenciadas por muitas ainda hoje.

Eurídice tenta escapar de um destino de esposa e dona de casa, inventa sempre o que fazer. Nessas invenções mostra suas habilidades desprezadas pelo marido. Poderia ter se tornado excelente cozinheira, ter escrito um livro, ter sido uma famosa costureira. Poderia ter sido, mas não foi. Sua irmã tenta escapar das consequências de um abandono. As duas vivem no Rio de Janeiro, conhecem personagens importantes dessa cidade e convivem com os diferentes grupos sociais dos anos de 1950.

Uma história muito bem contada e escrita com maestria. Uma deliciosa leitura!

Darwinismo, Raça e Gênero

O livro, “Darwinismo, raça e gênero: projetos modernizadores da nação em conferências e cursos públicos (Rio de Janeiro, 1870 – 1889), é resultado de uma tese de doutorado realizada na História Social da USP, em 2012.

Karoline Carula pesquisou espaços públicos onde eram proferidas conferências e realizados cursos,  na cidade do Rio de Janeiro durante o Império, entre 1870 e 1889: Conferências Populares da Glória, cursos Públicos do Museu Nacional e conferências “Avulsas”.

Nesse período o contexto social e político tornava premente discutir os temas relacionados aos negros, índios e às mulheres, na perspectiva dos projetos de modernização para o país. A partir de  1850, houve o fim do tráfico de escravos, gerando uma série de discussões sobre a situação do mercado de trabalho. Em 1871, foi promulgada a “Lei do Ventre Livre”, aumentado a necessidade de se pensar numa alternativa para a mão de obra, principalmente nas lavouras, aparecendo a imigração europeia e asiática como possível alternativa. E em 1870 o “Manisfesto Republicano” trouxe novas ideias a respeito do sistema político e da participação nas novas camadas médias urbanas.

As conferências públicas eram eventos de difusão científica, que agradavam uma parcela da camada letrada da sociedade carioca, que comparecia para adquirir conhecimentos em determinados assuntos, e sobretudo para manter relações de sociabilidade, reafirmando os lugares sociais de cada participante. Participavam ministros, médicos, jornalistas, estudantes, professores, médicos, advogados, engenheiros e a própria família real. Algumas mulheres também participavam, o que era visto como sinal de uma sociabilidade moderna e burguesa, antenada com os países mais avançados.

Nesses encontros as exposições dos oradores denotavam um discurso científico/cientificista, que servia de argumento para os projetos modernizadores da nação. Esses discursos se pautavam pela aplicação das teorias evolucionistas de Darwin para a sociedade e pela hierarquização racial e defendiam a educação da mulher para ser uma boa mãe. Civilizar e educar a população eram missões postas para o Império brasileiro, a fim de instruir negros, índios, mestiços, brancos pobres e as mulheres e assim acabar com os conflitos sociais e europeizar o Brasil.

A racialização da humanidade foi tema de muitas conferências públicas, hierarquizando a sociedade em termos raciais. As questões em torno da mestiçagem, do branqueamento da população e das dificuldades com os povos indígenas estavam presentes, a partir das teorias biológicas de Darwin, que foram apropriadas e ressignificadas para fins sociais.

A mulher foi tema de algumas conferências, visando instruí-las para serem boas mães e esposas, a partir dos preceitos da higiene e da medicina. O comparecimento das mulheres como espectadoras dessas conferências era pequeno, mas estimulado, para que elas pudessem desempenhar um papel melhor na sociedade. Entretanto a participação feminina como oradoras já não era encorajada, já que entre 1870 e 1889, apenas duas mulheres proferiram conferências.

A pesquisa de Karoline Carula é fundamental para refletirmos sobre a sociedade brasileira, pois revela a origem de muitas concepções que estiveram presentes na  no século XIX e que permaneceram ainda no século seguinte. Revela ainda a origem de, determinados preconceitos com relação aos negros e índios, que embasaram e permanecem até hoje sustentando,  determinadas visões e ações políticas em relação a esses grupos sociais. Por fim, é interessante perceber o papel atribuído à mulher nessas conferências, como objeto também a ser instruído ou civilizado, submetido exclusivamente aos determinantes da maternidade.

Mulheres da Nigéria

Buchi Emecheta é uma escritora nigeriana, muito conhecida em seu país, mas que pela primeira vez teve um livro publicado no Brasil, em 2017. “As Alegrias da Maternidade” conta a história de mulheres que lutaram para criar seus filhos, passando por diversos sacrifícios impostos pela própria maternidade e pelos homens nigerianos, nascidos e criados numa sociedade extremamente patriarcal.

A personagem central dessa história é Nhu Ego, que deixa a sua vida na aldeia de Ibuza para viver na cidade de Lagos. Ela seguiu uma trajetória comum a várias mulheres nigerianas que possuíam seu destino atrelado ao casamento e à maternidade. Uma mulher só alcançava reconhecimento na Nigéria de 1940 a partir do momento que desse filhos homens ao seu marido, garantia de eternidade para eles.

Os sofrimentos de Nhu Ego não estão somente relacionados ao subjugo patriarcal, mas também aos problemas trazidos pela dependência colonial, no caso da Nigéria a colonização era Britânica, e as desigualdades entre brancos e negros se davam nos postos de trabalho, na educação e nas relações sociais. Acrescenta-se ainda o crescimento das cidades nigerianas, como Lagos, para as quais muitos migravam em busca de trabalho, deixando para trás suas aldeias e laços familiares.

A partir da história que Buchi nos conta, nos afetamos profundamente com a história dessas mulheres e mais do que isso com uma sociedade colonial marcada pela opressão e pelo preconceito racial.