Istambul, ficção e biografia

A cidade em que vivemos, e principalmente aquela de nossa infância e adolescência, deixa marcas profundas em nossa memória afetiva. Anos depois iremos nos lembrar de cheiros, cores e sensações dos lugares pelos quais passamos em momentos diversos.

É essa memória afetiva dos lugares que está presente em Istambul de Orhan Pamuk. Tendo sempre vivido nessa cidade, ele descreve os acontecimentos e os significados particulares de ruas e construções de Istambul. Percebemos na narrativa uma cidade marcada por uma história passada de glória, pelos conflitos étnicos, e pelas transformações que  uma modernização do tipo ocidental foi sendo imposta aos seus habitantes.

Pamuk faz parte de uma família que foi se adaptando aos novos tempos, mas ele não deixa de revelar os estranhamentos que a ocidentalização de parte da Turquia causou em sua cidade.

O autor expõe em detalhes o desenho das ruas e a arquitetura da cidade, entramos na intimidade das casas de sua família. Quase tocamos nos seus objetos, quase podemos ver suas fotografias e adentramos nesse universo carregado por uma melancolia, por uma nostalgia vinda a partir das memórias do personagem central que possui laços profundos com o lugar.

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A questão da memória é o fio condutor da escrita de Pamuk e assume uma feição obsessiva em “O Museu da Inocência”, livro belíssimo, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, que infelizmente está esgotado em português, no formato impresso, somente encontramos em ebook.

Em “O Museu da Inocência” acompanhamos a paixão da personagem por uma mulher, paixão essa que a leva para a ação impulsiva de colecionar objetos que pertenceram a amada. Ao final essa personagem cria um Museu, que incrivelmente podemos de fato visitá-lo em Istambul. Ele existe, a existência real do Museu da Inocência nos faz vivenciar essa mistura de ficção e biografia, que é bem presente nessas duas obras de Pamuk.

 

 

Mulheres Modernistas

A Cosac Naify lançou em 2007 a Coleção “Mulheres Modernistas”, com traduções das seguintes autoras: Karen Blixen, Virginia Woolf, Marguerite Duras, Gertrude Stein, Natalia Ginzburg, Katherine Mansfield e Flannery O?Connor. A Coleção toda é muito bem cuidada, desde a seleção dos títulos até as ilustrações das capas.

Um dos títulos que mais gosto é “Léxico Familiar” da escritora italiana Natalia Ginszbug (1916 – 1991). A autora publicou esse livro em 1963, e conta as histórias que viveu com sua família, principalmente no período do fascismo italiano.

Sua escrita é intensamente sóbria, não há sobressaltos, mesmo quando narra momentos difíceis que ocorreram com seu irmão, marido e pai durante esse período.

Natália Ginzburg em vários momentos relembra o léxico criado pelo pai e pela mãe com expressões nascidas nas mais diversas circunstâncias e que passam a constituir uma forma particular de comunicação através das quais toda a família se identifica.

A autora diz: “só escrevo o que recordava. Por isso, quem pretende ler esse livro como se fosse uma crônica, encontrará grandes lacunas. É que este livro, ainda que tenha sido extraído da realidade, deve se ler como um romance”.

Outra vez, Estações Havana

Os livros que fazem parte da tetralogia Estações Havana, cujo personagem central é o policial Mario Conde, são acima de tudo uma declaração de amor à literatura.

O personagem, escritor-policial, das histórias que se passam em Havana, é um leitor apaixonado e um escritor sedento por criar personagens e narrativas ficcionais.

Mario Conde nos contagia com seu interesse literário e com o seu desejo pela escrita.

Ele queria escrever uma história sórdida e comovente, como sempre repetia. “Simplesmente tinha que escrever, espremer a espinha, estourar o abscesso, esvaziar o intestino, cuspir aquela saliva amarga, executar aquela operação radical, para começar a ser ele mesmo”. (Paisagem de Outono)

Essa é uma das mais belas justificativas para alguém começar a escrever.

A Havana de Mario Conde

Estações Havana são quatro histórias, que acontecem em Cuba, no inverno, primavera, verão e outono. O detetive Mario Conde, personagem central dessas histórias, sempre é encarregado de resolver um crime, cada um com especificidades peculiares aos seus respectivos personagens.

São histórias policiais, com pitadas de cinema noir, um pouco de literatura existencialista, muita música americana dos anos 60 e 70 e doses excessivas de rum.

Com o detetive Mario Conde passeamos por Havana em seus carros antigos, entramos nos casarões expropriados da burguesia cubana dos anos 50, conhecemos os personagens do lado pobre da cidade, sabemos dos renegados da Revolução e convivemos com os abusos de poderosos do regime.

É uma ficção que nos faz entrar no imaginário e na realidade cubana, e nos cativa pelos personagens complexos e demais humanos que fazem parte dessas narrativas.

 

 

Ler Proust

Há alguns dias comentei com uma senhora que estava lendo “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust e que minha intenção é ler toda a obra. Na verdade, já estou no final segundo volume que se chama “À sombra das raparigas em flor”.

Ela me olhou com cara de espanto, e disse-me que ela leu essa obra muito jovem que sempre se surpreendia com alguém com mais de 40 anos que ainda não tivesse lido. Ela falou isso com um ar um tanto esnobe.

Fiquei quieta! Mas lembrei de uma história ocorrida quando estava na universidade. Um professor, que por sinal era maravilhoso, entrou na sala e perguntou: “Quem aqui nunca leu Dostoiévski?” Alguns alunos, muito encabulados por nunca terem aberto um livro desse clássico autor russo, levantaram a mão, certos de que iriam ser humilhados por essa falta literária. Mas o professor, olhou bem para eles, e calorosamente afirmou: “Invejo muito vocês, só vocês terão o imenso prazer de ler um Dostoiévski pela primeira vez”.

Os alunos ficaram aliviadíssimos e por demais inspirados em ler pela primeira vez tal autor.

Pois é, eu recentemente tive esse prazer da primeira leitura, não foi com Dostoiévski, mas foi com Proust. Não é russo, mas francês. E digo que o prazer foi e está sendo enorme. E acho que somente agora estava pronta para ler “Em busca do tempo perdido”. Acho que não era um livro que eu apreciaria tanto na minha juventude. Ainda bem que não li antes, só agora consigo desfrutar das histórias, paisagens e personagens descritos por Proust.

Que bom bom poder ler um livro pela primeira vez! Que bom poder se encantar com uma leitura!

 

Francisco Dantas

Há pouco tempo conheci o escritor sergipano Francisco Dantas, numa noite de autógrafos e muito recomendado por um amigo. Francisco Dantas nasceu em 1941 e foi professor de português durante 30 anos na Universidade Federal de Sergipe. Seu romance de estréia é “Coivara da Memória”(1991), no qual a personagem relembra momentos da sua infância e descreve detalhadamente aspectos da cultura e do ambiente nordestino.