A Mulher Ruiva

Orhan Pamuk, em “A Mulher Ruiva”, conta a história de Cem Çelic, um jovem turco, filho de um pai militante de esquerda e de uma mãe dona de casa. Quando adolescente, seu pai desaparece. Fato que desencadeará os acontecimentos que mudarão para sempre a vida do protagonista.

Cem irá trabalhar com o mestre Mahmut, um homem acolhedor que substituirá, por um período, a figura do pai ausente. A profissão do mestre era cavar poços e encontrar água aos arredores da cidade. Numa Istambul ainda em processo de modernização, sem saneamento básico, a expansão da cidade para a periferia tornava a necessidade de cavar poços premente. A velha Istambul cedia lugar aos empreendimentos imobiliários e comerciais, lugares antes ermos transformavam-se em locais povoados.

Foram longos dias cavando o poço, o buraco estava cada vez mais fundo, escuro e estreito. A cada dia o trabalho era mais árduo. E mestre Mahmut não desistia de encontrar água naquele lugar. É nesse período que aparece a Mulher Ruiva, pertencente a uma trupe de teatro que estava temporariamente na cidade. Mulher atraente e misteriosa, modificará profundamente a vida de Cem.

O poço é real para Cem e também uma alegoria nessa trama simbólica construída por Pamuk. Uma alegoria das buscas, obsessões, desejos e medos que fazem parte do humano. Precisamos ir até o fundo do poço e olhar para ele.

A narrativa se desenvolve permeada por duas historias míticas: uma do ocidente, Édipo Rei de Sófocles e a outra do oriente, Shahnameh, do poeta persa Ferdowsi. Duas histórias que colocam em questão a relação pai e filho, na tragédia ocidental assistimos à um parricídio e na oriental a um filicídio.

Obsessivamente Cem Çelic convoca esses mitos. E tragicamente eles serão reencenados pelas personagens.

O Preço da Noiva

Buchi Emecheta foi uma escritora nigeriana, faleceu em 25 de janeiro de 2017. Buchi nasceu em 1944, em Lagos, mas foi criada em Ibuza, terra natal dos seus pais.

Suas histórias questionam a educação da mulher, sempre submissa às normas patriarcais, destinada à maternidade e proibida muitas vezes de continuar seus estudos para cuidar da casa e da família.

“Preço da Noiva” nos conta a história de Aku-nna, uma jovem menina que tinha sonhos de estudar e ir para a universidade. Mas quando seu pai morre, a família tem que se mudar de Lagos e ir para Ibuza, onde os costumes tradicionais eram bem mais rígidos com as mulheres. Sem escolha, as meninas não podiam ir para a escola depois de uma certa idade, deviam se casar com quem a família determinar e ter muitos filhos para honrar seu marido.

Apesar das marcantes diferenças culturais entre as sociedades tradicionais africanas e as tradições ocidentais, encontramos muitos pontos de contato em relação à opressão feminina e as posturas diversas em relação à educação de meninos e meninas. Percebemos ainda a fusão de tradições cristãs e africanas, mas que em nada aliviou a repressão sofrida pelas mulheres.

A escrita de Buchi Emecheta é muito sensível às opressões cotidianas que impedem muitas mulheres de seguirem seus desejos afetivos e profissionais. Sua narrativa nos sensibiliza com a dor vivida por suas personagens, sujeitas à uma violência familiar ancorada na naturalização da inferioridade feminina. Parece uma história distante no tempo e no espaço, mas está bem perto de nós.

Todos os Nossos Ontens

Benito Mussolini assumiu como primeiro ministro da Itália, em 1922. Foi o fundador do fascismo, corrente política que defende a tomada do poder pela força e a implantação de um governo ditatorial. Em 1925, autoproclamou-se ditador e exerceu forte repressão aos trabalhadores, aos partidos de oposição e à liberdade se expressão.

Em 1940, a Itália entrou na Segunda Guerra Mundial ao lado dos alemães, sua participação significou uma série de derrotas para os italianos, além de uma grave crise econômica que atingiu todo o país. Em 1943, Mussolini foi deposto pelo próprio Partido Fascista. Com a ajuda dos alemães ele conseguiu ser empossado novamente, mas em 1945, após a derrota da Alemanha na guerra, ele foi preso e fuzilado junto com sua amante.

Esse é o cenário onde vivem os personagens de “Todos os Nossos Ontens”, escrito por Natalia Ginsburg (1916 – 1991), publicado pela primeira vez em 1952. Duas famílias marcadas pelo fascismo, pela guerra, pela Itália ocupada por alemães. Observamos o cotidiano, as relações familiares, os vínculos amorosos, os conflitos políticos e os desamores dessas famílias do norte da Itália.

A escritora Natalia Ginsburg também sofreu a violência e a repressão fascista na Itália. Seu pai e seus irmãos foram presos pelo regime fascista, em 1935. Seu primeiro marido, Leone Ginszburg, teve que se exilar no sul da Itália, de 1940 a 1943. Leone foi preso pelos nazistas, torturado e morreu em 1944.

Esse contexto histórico está fortemente presente na narrativa de “Todos os Nossos Ontens”, entretanto, são as subjetividades dos personagens que conduzem a ação. As personalidades, os afetos e as sensibilidades diversas guiam as vidas de Anna, Ippolito, Concettina, Cenzo Rena, Giustino, Emanuele, alguns dos personagens dessa história. Tornando-os particulares diante das situações que são comuns à todos os que viveram naquele período.

Água por Todos os Lados

Para quem é fã das histórias e personagens de Leonardo Padura, como eu sou, esse livro é imperdível. Nele, Padura contextualiza a criação de muitas de suas obras, contando como foi criar os enredos de seus romances, pensar a ambientação e as figuras humanas envolvidas em cada situação. Por exemplo, para escrever “Hereges”, Padura foi até Amsterdã, para ver e sentir aquela cidade, passar pelos lugares por onde caminharam seus personagens, visitar o Atelier de Rembrandt e observar as dimensões daquele lugar, sede de pinturas que se tornaram icônicas.

No caso da escrita de “O Homem que Amava os Cachorros”, ele relata detalhes do momento em que escreveu esse romance, Padura empreendeu uma rigorosa pesquisa histórica. Entrevistou muitas pessoas que participaram de alguma forma da vida dos personagens históricos dessa trama, além de consultar arquivos históricos, jornais de época, etc.

Padura nos conta também sua relação com a cidade em que nasceu e sempre viveu. A ilha, cercada de água para todos os lados, é sempre a personagem central de suas histórias. Cuba com as suas peculiaridades históricas, as especificidades de uma sociedade que viveu uma Revolução Comunista na segunda metade do século XX, os embargos americanos, a derrocada da União Soviética e a profícua cultura cubana. Todos esses elementos estão sempre presentes nos romances de Leonardo Padura.

Mario Conde, personagem que aparece em vários de seus romances, é um cubano, passou pelas várias aventuras e desventuras de um morador de Havana e é pelos seus olhos que o leitor percorre os caminhos havaneses.

Com “Água por Todos os Lados” entramos na atmosfera cubana de Leonardo Padura, percorremos os trajetos de Havana, mas também nos transportamos para outros lugares e tempos históricos diversos, numa viagem literária muito bem delineada, que nos leva para o século XVII, para a Revolução Russa de 1917, para a Cuba dos anos de 1960 ou para a Havana dos anos 90, até os dias atuais.

Se deus me chamar não vou

A personagem dessa história tem 11 anos. Com a voz de criança, bem humorada, ela narra o seu cotidiano: escola, família, amigos. É uma criança solitária, inteligente e que um dia quer ser uma escritora. Em um dado momento sua família se transforma e torna-se nada convencional, o que agrava alguns de seus dilemas.

Apesar da personagem ter 11 anos esse não é um livro para crianças. Maria Carmem com seu jeito de criança aborda questões que são de todas as pessoas: a solidão, o envelhecimento, o amor, a diversidade, as questões de gênero. De um jeito muito divertido, esses temas fundamentais do mundo contemporâneo perpassam os acontecimentos que envolvem as personagens. E fazem parte constantemente das divagações que acompanham Maria Carmem diariamente.

A autora, Mariana Salomão Carrara, é uma jovem escritora paulistana. Já recebeu prêmios nacionais como o Off-Flip (2012), o sesc-df, o Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), o Sinecol, e o Josué Guimarães. Ficou com o 2º lugar no Prêmio Guiões de Roteiros (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem É lá que eu quero morar.

O que ela sussurra

“Se poemas fossem capazes de mudar o mundo, não seriam poemas, mas máquinas. Sua força está em sua incapacidade, seu movimento instantâneo de dúvida, um deslocamento de pálpebra, uma ausência despercebida que vem se instalar na alma de forma mais duradoura. Os vencedores sabem disso e por isso nos odeiam e nos temem, porque conhecem o perigo dos mínimos deslocamentos”.

A citação acima está no livro “O que ela sussurra” da escritora brasileira Noemi Jaffe, cuja personagem Nadejda Mandelstam (1899-1980) sussurra os medos e as angústias ao enfrentar o regime de Stálin. Ela e seu marido, Óssip Mandelstam(1891-1938), sofreram com a fome, as perseguições e os desmandos ditatoriais da Rússia pós revolução de 1917.

Óssip Mandelstam foi preso, torturado e morto pelo regime stalinista. Para que a obra, desse que foi um dos maiores poetas russos, não se perdesse diante da fúria destrutiva de Stálin, Nadejda sussurrava diariamente os poemas de seu marido, para que assim eles permanecessem em sua memória e ela pudesse um dia publicá-los.

Noemi Jaffe transforma essa trágica histórica, em uma poética reflexão sobre memória e o esquecimento, sobre o amor e o ódio, e sobretudo sobre a liberdade que a criação artística proporciona à humanidade. Nadejda manteve-se viva, no amplo sentido dessa palavra, pela e para a poesia.

“Assopro a lembrança, fuu, vai embora, mas ela volta. O passado é um cobertor rosa que não serve para cobrir nossos corpos. Sempre falta ou sobra uma parte e as memórias se contorcem, são como galhos semimortos presos a raízes parasitas, você e eu. O tempo ultrapassa nossos corpos, mas precisa se agarrar a eles, tomar seu tamanho e hoje cabe exatamente em mim, o passado fui eu que inventei.”

Mrs. Dalloway

Mrs. Dalloway foi publicado em 1925 e é considerado um marco do romance modernista. Dois personagens sem ponto de contato. Duas personalidades opostas. Uma cidade em comum: Londres.

Septimus representa o mundo europeu do pós – guerra, repleto de homens que tiveram contato com a guerra, com a morte e que questionam o sentido do mundo moderno. Septimus era um ex- soldado, não sentia mais nada, seu único desejo era morrer.

Clarissa Dalloway era uma mulher de 50 anos, casada com um político conservador. Ela não tinha nenhum talento especial, a não ser o de dar festas para a alta sociedade londrina.

O romance descreve os afazeres comuns desses personagens e os acontecimentos ao redor deles, em Londres. A cidade e suas ruas, lojas, carros e personagens, tomam boa parte de uma detalhada descrição da realidade londrina da década de 1920.

No mesmo dia uma festa e um suicídio, dois mundos apartados se encontram num único instante

Autobiografia de Todo Mundo

“O mundo está coberto de pessoas e assim ninguém pode se perder mais e os cachorros não latem mais para a lua há tantas luzes em todos os lugares que eles já não notam a lua.”

“O mundo está coberto de pessoas”. Essa frase é repetida muitas vezes por Gertrude Stein no seu livro Autobiografia de Todo Mundo, publicado pela primeira vez em 1937. Penso que a frase pode ser lida de muitas maneiras. Traduz as mudanças do mundo após a Primeira Guerra Mundial, o crescimento das cidades, a aceleração provocada pelas máquinas, pela eletricidade e automóveis, os deslocamentos constantes e a agitação cultural dos anos de 1920.

Stein começa a Autobiografia de Todo Mundo com comentários sobre a Autobiografia de Alice B. Toklas, publicação anterior da mesma escritora, lançado em 1933. Essa última alcançou grande sucesso entre os leitores da época, mas também lhe rendeu muitas críticas. Algumas das pessoas mencionadas nos seus relatos se sentiram ofendidas, ou consideraram que Gertrude Stein não havia sido verdadeira nas histórias que contou sobre seus amigos. Ela menciona essas críticas, mas ao mesmo tempo parecia não se importar tanto, pois gostou bastante de ter alcançado sucesso com seu livro. Ela mesmo diz que tinha se tornado celebridade e gostava muito disso.

Em decorrência do enorme sucesso, Gertrude Stein e Alice fazem uma longa viagem pelos Estados Unidos, visitam muitas cidades e universidades, onde Stein realiza palestras e cursos para jovens estudantes. Com a escrita que lhe é peculiar, a escritora narra suas experiências como viajante e conferencista. Seu texto é construído sem pausas, sem vírgulas, com repetições de palavras e acontecimentos, com um fluxo contínuo de descrições e sensações. Nós, leitores, participamos da viagem, observamos os caminhos pelos quais passam, conversamos com quem elas encontram pelo mundo, coberto de pessoas.

O mundo de Gertrude Stein era coberto de muitas pessoas ilustres, pintores, intelectuais, escritores, músicos. Suas histórias são recheadas de curiosidades sobre essas personalidades, que a acompanharam por toda a vida. Seus escritos também nos contam sobre o próprio trabalho, o ato de escrever, seus livros, suas conferências. As diferenças entre ler, escrever e falar. Ou como ela mesma falava, o fora e o dentro, falar vem de fora, ler vem de dentro.

O mundo está coberto de pessoas, sejam elas europeus, asiáticos, americanos ou africanos. Todos indo e vindo de algum lugar. Stein morava em Paris, nasceu nos Estados Unidos, tinha empregados chineses, indianos ou poloneses. Na América conviveu com europeus, americanos, mexicanos. Falava dos negros que encontrava, das suas atividades, dos seus modos de vida. Seu mundo estava povoado de nacionalidades e de experiências com pessoas diversas.

A Autobiografia de todo o mundo é de todo mundo com o qual Gertrude e Alice conviveram algum dia. É um experimento literário, uma descrição de cotidianos banais, mas sem banalidade alguma.

A autobiografia de Alice B. Toklas

Gertrude Stein nasceu em 1874, nos Estados Unidos, no estado da Pensilvânia. Mas viveu boa parte de sua vida em Paris. Foi escritora, modernista e feminista, e conviveu com vários intelectuais e artistas entre as décadas de 1910 e 1940. Escreveu uma obra intitulada “A Autobiografia de Alice B. Toklas”. Alice era sua secretária e amante, com quem viveu durante 25 anos. A autobiografia revela as configurações de gênero e como elas se reproduziam entre as duas: enquanto Gertrude Stein se sentava com os homens escritores e artistas, Alice conversava com as mulheres dos artistas.

A sociedade parisiense, do início do século XX, reunia muitos artistas e intelectuais. A casa de Gertrude Stein era frequentada por Pablo Picasso, Matisse, Apolinaire, Erza Pound, Ernst Hemingay, James Joyce entre outros.  Alice fazia muitos jantares e até publicou um livro chamado “A cozinha de Alice B.Toklas”, com as receitas dos pratos que ela servia nessas ocasiões. Picasso foi  grande amigo de Gertrude Stein, frequentavam as casas de um e de outro. Ela posou para ele durante horas e dias. E ele pintou seu retrato.

A autobiografia de Alice B. Toklas é um livro fundamental da vanguarda modernista do século XX. O livro mostra como jovens artistas vindos de diversas partes do mundo, se encontravam em Paris e ali  traçaram novos caminhos para a Arte. Embora tenha sido escrito por Gertrude Stein, o livro é narrado do ponto de vista de Alice.

Durante a primeira guerra elas se inscreveram na FAFF, um Fundo de Amparo aos soldados norte-americanos. Percorreram várias cidades francesas como voluntárias desse serviço. Após a guerra, elas continuaram encontrando artistas e intelectuais que ainda estavam em Paris e outros que acabavam de chegar. Em 19 de julho de 1946, Gertrude Stein recebeu o diagnóstico de um câncer de útero, faleceu no dia 27.

No livro são mencionados os momentos em que Stein escrevia seus livros e Alice fazia a revisão, como quando Stein escreveu “O modo de ser dos americanos” (1908) e “Três Vidas” (1909). Gertrude Stein escreveu muitos livros, peças teatrais, poesias e um roteiro para o cinema. Escreveu também uma ópera chamada “Four Saints”, musicada pelo russo Virgil Thonson, seu amigo pessoal.

Adeus, Gana

Esse livro de Taiye Selasi foi publicado originalmente em 2013. Narra a história de uma família de origem nigeriana, que migra para os Estados Unidos e lá nascem quatro filhos. Cada um deles terá um destino, mas todos marcados por sua origem, pelas perdas familiares e pelas marcas dos preconceitos raciais em relação aos africanos. É uma situação de racismo que funda essa história e a partir dela uma sequência de fatos mudará o destino dos personagens.

O livro de Taiye tem como núcleo gerador da narrativa o tema da perda, seja nas relações amorosas, familiares ou naquelas oriundas dos dramas sociais gerados pela guerra, pela imigração e pela desigualdade.

A linguagem da autora cria imagens inesquecíveis e é extremamente poética para abordar episódios vividos por seus personagens. São experiências africanas em terras não africanas, e entramos em contato com problemas presentes em todas as nossa vidas.