A autobiografia de Alice B. Toklas

Gertrude Stein nasceu em 1874, nos Estados Unidos, no estado da Pensilvânia. Mas viveu boa parte de sua vida em Paris. Foi escritora, modernista e feminista, e conviveu com vários intelectuais e artistas entre as décadas de 1910 e 1940. Escreveu uma obra intitulada “A Autobiografia de Alice B. Toklas”. Alice era sua secretária e amante, com quem viveu durante 25 anos. A autobiografia revela as configurações de gênero e como elas se reproduziam entre as duas: enquanto Gertrude Stein se sentava com os homens escritores e artistas, Alice conversava com as mulheres dos artistas.

A sociedade parisiense, do início do século XX, reunia muitos artistas e intelectuais. A casa de Gertrude Stein era frequentada por Pablo Picasso, Matisse, Apolinaire, Erza Pound, Ernst Hemingay, James Joyce entre outros.  Alice fazia muitos jantares e até publicou um livro chamado “A cozinha de Alice B.Toklas”, com as receitas dos pratos que ela servia nessas ocasiões. Picasso foi  grande amigo de Gertrude Stein, frequentavam as casas de um e de outro. Ela posou para ele durante horas e dias. E ele pintou seu retrato.

A autobiografia de Alice B. Toklas é um livro fundamental da vanguarda modernista do século XX. O livro mostra como jovens artistas vindos de diversas partes do mundo, se encontravam em Paris e ali  traçaram novos caminhos para a Arte. Embora tenha sido escrito por Gertrude Stein, o livro é narrado do ponto de vista de Alice.

Durante a primeira guerra elas se inscreveram na FAFF, um Fundo de Amparo aos soldados norte-americanos. Percorreram várias cidades francesas como voluntárias desse serviço. Após a guerra, elas continuaram encontrando artistas e intelectuais que ainda estavam em Paris e outros que acabavam de chegar. Em 19 de julho de 1946, Gertrude Stein recebeu o diagnóstico de um câncer de útero, faleceu no dia 27.

No livro são mencionados os momentos em que Stein escrevia seus livros e Alice fazia a revisão, como quando Stein escreveu “O modo de ser dos americanos” (1908) e “Três Vidas” (1909). Gertrude Stein escreveu muitos livros, peças teatrais, poesias e um roteiro para o cinema. Escreveu também uma ópera chamada “Four Saints”, musicada pelo russo Virgil Thonson, seu amigo pessoal.

Êxtase da Transformação

Stefan Zweig foi um escritor judeu, que saiu do seu país a fim de se exilar dos horrores do Nazismo que assolava a Europa. Fez primeiro uma viagem com sua esposa para os Estados Unidos e depois de um tempo se instalaram em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Zweig foi um dos maiores escritores do final do século XIX, sua obra teve repercussões na literatura, no teatro e no cinema. Ele era um intelectual bastante popular nos países europeus. Escreveu além de romances, biografias e peças de teatro.

Em “Êxtase da Transformação” a personagem Christine, pertencente a uma família pobre, trabalhadora da empresa de correios, se deslumbra quando entra em contato com pessoas de uma origem social burguesa, se encanta com a riqueza e o luxo das vestimentas e dos objetos. É seduzida pelos novos amigos e por uma sociabilidade própria desse grupo social. Passa alguns dias com sua tia num hotel de luxo e ali transforma-se numa moça bem vestida, rica e cheia de amigos.

De volta para sua casa, entristece-se ao se deparar novamente com a pobreza, com a rotina do trabalho, com as roupas puídas, com os lençóis ásperos.

Esse retorno transforma agora sua personalidade, torna-se uma pessoa amarga, cheia de desesperança e ao mesmo tempo ávida por uma saída rápida dessa vida simplória.

O cenário é a guerra, as personagens sofrem as consequências sociais e econômicas trazidas pelo conflito mundial. O sentimento é de desespero.

O percurso dessa personagem não é diferente da trajetória do próprio Zweig, que nasceu no interior da burguesia vienense, viveu um período de intenso reconhecimento pelo seu trabalho e que sofreu as desventuras causadas pela guerra. Até se suicidar com a sua esposa, em 1942, quando residia no Brasil.

A amargura de ver seu mundo ruir, o horror das atrocidades de uma guerra e a profunda falta e esperança de que poderia ainda ter uma vida melhor, são pontos de contato entre a personagem desse livro e o próprio autor que a criou.

A Vida Invisível

O livro de Marta Batalha, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, foi adaptado para o cinema e o filme dirigido por Karim Ainouz.  Ainda não assisti ao filme, mas acabei de ler o livro. E adorei!

A história poderia ser escrita pela minha avó, pela minha mãe, minha tia, ou tantas outras mulheres que viveram num passado bem recente. As opressões cotidianas sofridas pelas mulheres frente à sociedade patriarcal aparecem nas personagens femininas dessa narrativa. Muitas vezes, lendo o livro, eu me lembrei de situações narradas pelas mulheres da minha família. São histórias muito próximas, de um universo conhecido. Opressões ainda vivenciadas por muitas ainda hoje.

Eurídice tenta escapar de um destino de esposa e dona de casa, inventa sempre o que fazer. Nessas invenções mostra suas habilidades desprezadas pelo marido. Poderia ter se tornado excelente cozinheira, ter escrito um livro, ter sido uma famosa costureira. Poderia ter sido, mas não foi. Sua irmã tenta escapar das consequências de um abandono. As duas vivem no Rio de Janeiro, conhecem personagens importantes dessa cidade e convivem com os diferentes grupos sociais dos anos de 1950.

Uma história muito bem contada e escrita com maestria. Uma deliciosa leitura!

O Leitor como Metáfora

“Somos criaturas leitoras, ingerimos palavras, sabemos que as palavras são nosso meio de estar no mundo, e é através das palavras que identificamos nossa realidade e por meio de palavras somos, nós mesmos, identificados.” (Alberto Manguel)

Nos últimos anos surgiram muitos questionamentos a respeito do futuro da leitura. Com o avanço das tecnologias digitais, o livro impresso tornou-se objeto a ser preservado diante do risco de sua substituição pelas mídias eletrônicas. Com o desaparecimento do livro, a leitura também se viu em xeque, não teríamos mais a capacidade de nos determos em textos longos.

Entretanto, mesmo com o aparecimento dos e-readers, tablets e demais suportes de leitura, o livro impresso continua sobrevivendo e ainda sendo o suporte preferido dos leitores.

Alberto Manguel, ensaísta e tradutor argentino, escreveu um pequeno livro com reflexões sobre o leitor de livros. Ele discorre a respeito de três metáforas utilizadas como referências aos leitores: a viagem, a torre e a traça. A partir dessas metáforas, Manguel faz um percurso histórico, pela filosofia e literatura, apontando como diversos autores abordaram em suas ideias e obras a questão do leitor.

Na Divina Comédia, Dante Alighieri convida seus leitores a companhá-lo em sua viagem, e são transformados pelo ato da leitura em personagens e companheiros de aventura do autor. Em Hamlet, Shakespeare coloca seus leitores diante do dilema entre o pensamento e a ação, entre confiar nos livros ou na realidade. E por fim, O Louco dos Livros, representado pelo Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, personagem que de tanto ler romances de cavalaria perdeu-se num mundo de aventuras imaginárias.

Resultado de imagem para dom quixote goya   Francisco de Goya. Don Quijote de la Mancha

Essas são apenas algumas das referências sobre o ato da leitura que Manguel explora no seu texto. Como leitores, ora nos identificamos, ora nos distanciamos da viagem, da torre e da traça. Mas nos deliciamos com as palavras tão bem escritas a respeito desse milenar “ofício da leitura”.