Adeus, Gana

Esse livro de Taiye Selasi foi publicado originalmente em 2013. Narra a história de uma família de origem nigeriana, que migra para os Estados Unidos e lá nascem quatro filhos. Cada um deles terá um destino, mas todos marcados por sua origem, pelas perdas familiares e pelas marcas dos preconceitos raciais em relação aos africanos. É uma situação de racismo que funda essa história e a partir dela uma sequência de fatos mudará o destino dos personagens.

O livro de Taiye tem como núcleo gerador da narrativa o tema da perda, seja nas relações amorosas, familiares ou naquelas oriundas dos dramas sociais gerados pela guerra, pela imigração e pela desigualdade.

A linguagem da autora cria imagens inesquecíveis e é extremamente poética para abordar episódios vividos por seus personagens. São experiências africanas em terras não africanas, e entramos em contato com problemas presentes em todas as nossa vidas.

Limonov

Limonov é um livro curioso. Trata-se da biografia do soviético Eduard Limonov, mas também é em alguns momentos autobiografia, já que o autor Emmanuel Carrère nos fala um pouco dele mesmo. Logo no primeiro capítulo somo atraídos pela linguagem que o autor utiliza para contar a história, um pouco jornalística, um pouco cinematográfica, pois tem um movimento narrativo que nos lembra um filme.

Mas logo em seguida somos fisgados pela história de Limonov, e ficamos na dúvida se esse personagem existiu de fato ou não. Parece surpreendente que ele tenha existido. Mas existiu, é bem contemporâneo, entretanto, eu não o conhecia.

Acredito que como todos que cresceram em plena Guerra Fria, muito se ouviu a respeito da URSS. Demonizada por uns, idolatrada por outros, mas sem sabermos de fato como era viver naquele imenso território do outro lado do mundo. Com a história que Carrère nos conta chegamos um pouco mais perto dessa imensa URSS e de seu declínio nos anos 90.

Limonov passou por vários momentos históricos, participando ativamente, como rebelde, dissidente, escritor, revolucionário, soldado, prisioneiro, decadente, enfim, assumiu um número grande de personagens no decorrer da sua vida. E pela história desses personagens Carrère nos fala do apogeu e declínio do Império Soviético.

Precisarão ainda muitos anos para compreendermos o que foi de fato o comunismo na URSS, o stalinismo, a relação com as repúblicas e a independência das mesmas ao final do Império. Não só para nós ocidentais, mas também para aqueles que estiveram diretamente envolvidos com os acontecimentos. ainda restam muitas imagens nebulosas.

Destaco uma frase do livro, referindo-se a acontecimentos da década de 90 na URSS, que me parece bastante elucidativa de como é difícil compreendermos e nos posicionarmos diante de determinados acontecimentos históricos: “Assiste-se em Moscou a ecléticas passeatas de aposentados reduzidos à mendicância, militares que deixaram de receber soldo, nacionalistas enlouquecidos com a liquidação do Império, comunistas nostálgicos do tempo da Igualdade na pobreza, pessoas desorientadas porque não compreendem nada da história: com efeito, como saber onde está o bem e o mal, quem são os heróis e quem são os traidores, quando se continua todos os anos a celebrar a Festa da revolução sem deixar de repetir que essa Revolução foi simultaneamente um crime e uma catástrofe?”

Mulheres da Nigéria

Buchi Emecheta é uma escritora nigeriana, muito conhecida em seu país, mas que pela primeira vez teve um livro publicado no Brasil, em 2017. “As Alegrias da Maternidade” conta a história de mulheres que lutaram para criar seus filhos, passando por diversos sacrifícios impostos pela própria maternidade e pelos homens nigerianos, nascidos e criados numa sociedade extremamente patriarcal.

A personagem central dessa história é Nhu Ego, que deixa a sua vida na aldeia de Ibuza para viver na cidade de Lagos. Ela seguiu uma trajetória comum a várias mulheres nigerianas que possuíam seu destino atrelado ao casamento e à maternidade. Uma mulher só alcançava reconhecimento na Nigéria de 1940 a partir do momento que desse filhos homens ao seu marido, garantia de eternidade para eles.

Os sofrimentos de Nhu Ego não estão somente relacionados ao subjugo patriarcal, mas também aos problemas trazidos pela dependência colonial, no caso da Nigéria a colonização era Britânica, e as desigualdades entre brancos e negros se davam nos postos de trabalho, na educação e nas relações sociais. Acrescenta-se ainda o crescimento das cidades nigerianas, como Lagos, para as quais muitos migravam em busca de trabalho, deixando para trás suas aldeias e laços familiares.

A partir da história que Buchi nos conta, nos afetamos profundamente com a história dessas mulheres e mais do que isso com uma sociedade colonial marcada pela opressão e pelo preconceito racial.