O Alforje

Bahiyyih, autora do livro “O Alforje”, nasceu no Irã em 1948, mas migrou ainda jovem para fora do país, vivendo hoje na Inglaterra.

Nesse livro, a escritora conta a mesma história a partir de diferentes perspectivas. Em cada capítulo um personagem nos relata os mesmos acontecimentos, apontando novos detalhes, sentimentos e versões diversas dos fatos. A cada capítulo mudamos nossas opiniões sobre a história e relativizamos as atitudes dos personagens.

“O lugar, o tempo, os eventos do dia e da noite são os mesmos em “O Alforje”, mas todos os personagens leem o enredo de maneira diferente. Tão logo reconhecemos diferenças como expressão não de limitação, mas de riqueza e de variedade, podemos sentir pelos personagens, nos sentimos atraídos por eles mesmo que sejam corruptos”.(Bahiyyth Nakhjavani)

“O Alforje” tem uma linguagem poética e nos aproxima de uma cultura que pouco conhecemos, nos leva para o deserto do Oriente Médio, em meados do século XIX, no caminho entre Meca e Medina.

Darwinismo, Raça e Gênero

O livro, “Darwinismo, raça e gênero: projetos modernizadores da nação em conferências e cursos públicos (Rio de Janeiro, 1870 – 1889), é resultado de uma tese de doutorado realizada na História Social da USP, em 2012.

Karoline Carula pesquisou espaços públicos onde eram proferidas conferências e realizados cursos,  na cidade do Rio de Janeiro durante o Império, entre 1870 e 1889: Conferências Populares da Glória, cursos Públicos do Museu Nacional e conferências “Avulsas”.

Nesse período o contexto social e político tornava premente discutir os temas relacionados aos negros, índios e às mulheres, na perspectiva dos projetos de modernização para o país. A partir de  1850, houve o fim do tráfico de escravos, gerando uma série de discussões sobre a situação do mercado de trabalho. Em 1871, foi promulgada a “Lei do Ventre Livre”, aumentado a necessidade de se pensar numa alternativa para a mão de obra, principalmente nas lavouras, aparecendo a imigração europeia e asiática como possível alternativa. E em 1870 o “Manisfesto Republicano” trouxe novas ideias a respeito do sistema político e da participação nas novas camadas médias urbanas.

As conferências públicas eram eventos de difusão científica, que agradavam uma parcela da camada letrada da sociedade carioca, que comparecia para adquirir conhecimentos em determinados assuntos, e sobretudo para manter relações de sociabilidade, reafirmando os lugares sociais de cada participante. Participavam ministros, médicos, jornalistas, estudantes, professores, médicos, advogados, engenheiros e a própria família real. Algumas mulheres também participavam, o que era visto como sinal de uma sociabilidade moderna e burguesa, antenada com os países mais avançados.

Nesses encontros as exposições dos oradores denotavam um discurso científico/cientificista, que servia de argumento para os projetos modernizadores da nação. Esses discursos se pautavam pela aplicação das teorias evolucionistas de Darwin para a sociedade e pela hierarquização racial e defendiam a educação da mulher para ser uma boa mãe. Civilizar e educar a população eram missões postas para o Império brasileiro, a fim de instruir negros, índios, mestiços, brancos pobres e as mulheres e assim acabar com os conflitos sociais e europeizar o Brasil.

A racialização da humanidade foi tema de muitas conferências públicas, hierarquizando a sociedade em termos raciais. As questões em torno da mestiçagem, do branqueamento da população e das dificuldades com os povos indígenas estavam presentes, a partir das teorias biológicas de Darwin, que foram apropriadas e ressignificadas para fins sociais.

A mulher foi tema de algumas conferências, visando instruí-las para serem boas mães e esposas, a partir dos preceitos da higiene e da medicina. O comparecimento das mulheres como espectadoras dessas conferências era pequeno, mas estimulado, para que elas pudessem desempenhar um papel melhor na sociedade. Entretanto a participação feminina como oradoras já não era encorajada, já que entre 1870 e 1889, apenas duas mulheres proferiram conferências.

A pesquisa de Karoline Carula é fundamental para refletirmos sobre a sociedade brasileira, pois revela a origem de muitas concepções que estiveram presentes na  no século XIX e que permaneceram ainda no século seguinte. Revela ainda a origem de, determinados preconceitos com relação aos negros e índios, que embasaram e permanecem até hoje sustentando,  determinadas visões e ações políticas em relação a esses grupos sociais. Por fim, é interessante perceber o papel atribuído à mulher nessas conferências, como objeto também a ser instruído ou civilizado, submetido exclusivamente aos determinantes da maternidade.

Quem matou Roland Barthes?

Em 25 de fevereiro de 1980,Roland Barthes ao sair de um almoço com o futuro presidente francês François Mitterrand, foi atropelado por um automóvel.  O acidente aconteceu quando atravessava a calçada em frente ao prédio onde lecionava, o Collège de France. Ficou no hospital por um mês, vindo a falecer aos 64 anos, no dia 26 de março de 1980.

A partir desse fato real, o escritor Roland Binet inicia sua ficção, parte desse acidente e cria uma história cujos personagens são a intelectualidade francesa da década de 1980. Na trama ficcional, após o atropelamento de Barthes surge a suspeita de que haveria um motivo para assassiná-lo e que, portanto, não teria sido um mero acidente mas algo premeditado. O detetive Jacques Bayard inicia uma busca para desvendar quem teria praticado esse crime, mas como não conhece nada do universo intelectual pede um auxílio para o jovem professor Simon Herzog, que o acompanha numa longa e rocambolesca investigação.

Quem matou Roland Barthes? é um livro para iniciados, para quem conhece um pouco da teoria semiológica, para quem leu Roland Barthes e teve contato com suas teorias sobre a linguagem e para quem já se embrenhou pelo universo intelectual francês.

Barthes era crítico literário, filósofo, escritor. Diziam que era solitário e melancólico. No mundo intelectual fez muitas amizades e inimizades. É nesse cenário que Binet cria sua trama, transformando o atropelamento de Barthes num caso de polícia. Ele elabora as falas e intrigas dos personagens a partir das teorias da linguística, entre elas, a de Roman Jakobson (1896-1982), que descreveu seis funções para os atos de comunicação: denotativa, emotiva, conotativa, fática, metalinguística e poética.

A suspeita a respeito das circunstâncias desse acidente é de que Barthes tenha sido assassinado por conta da recém criada sétima função da linguagem. Nessa função a fala ou a linguagem seria capaz de promover a ação direta do outro. A sétima função, motivo do crime, levaria a quem tivesse seu domínio a ser dono do mundo. “Sua força não teria nenhum limite. Poderia ser eleito em todas as eleições, arregimentar as massas, provocar revoluções, seduzir todas as mulheres, vender todos os produtos inimagináveis, construir impérios, fazer falcatruas com a terra inteira, obter tudo o que quisesse em qualquer circunstância” (P.212).

Durante a investigação são interrogados Foucault, Deleuze, Althusser, Umberto Eco, entre muitos outros intelectuais que estavam no auge de suas carreiras na década de 1980. Há cenas e falas muito inusitadas e engraçadas, que nos levam para esse universo dos filósofos, linguístas e historiadores da França de 1980.

 

 

Usos do Esquecimento

Reconhecemos a importância da memória em nossas vidas, lembrar do passado, da nossa infância, dos nossos pais, dos acontecimentos marcantes que deram certo ou não na nossa trajetória pessoal. Assim como sabemos do valor da memória coletiva e da narrativa histórica, que garante uma consciência do vivido pelos diversos grupos sociais, consolidando o passado nacional e local.

Mas e o esquecimento? Devemos também esquecer os acontecimentos pessoais que nos foram nocivos? É possível esquecer? Os povos podem esquecer seu passado histórico, as guerras, as revoluções, e demais acontecimentos traumáticos? O que esquecer?

Em os “Usos do Esquecimento” (Ed. Unicamp) encontramos cinco reflexões a respeito das questões postas acima. A publicação   traz um conjunto de conferências proferidas em 1987, no Colóquio de Royaumont. A Abadia de Royaumont localiza-se nas proximidades da comuna francesa de Asnières-sur-Oise, na França.

Reuniram-se nesse colóquio historiadores, filósofos e linguistas para refletirem a respeito das relações entre memória e esquecimento.O historiador Yosef Hayim Yerushalmi discorre sobre as diferenças entre memória e reminiscência, entre o esquecimento pessoal e o coletivo. Nicole Loraux, historiadora e antropóloga, aborda a questão da anistia e nos pergunta: é possível esquecer por decreto? Ela retorna ao passado grego para discutir as estratégias políticas para esquecer e rememorar o passado. Hans Mommsen, historiador alemão, recupera as sequelas do tempo do regime nazista para falar das possibilidades de esquecimento dos terríveis acontecimentos daquele período. O linguista Jean – Claude Milner utiliza as ideias de Freud para abordar a relação entre esquecimento, real e linguagem. Por fim, o filósofo Gianni Vattimo, com base em Heidegger e Nietzche, reflete sobre o esquecimento a partir da ideia de historicização da cultura: “o excesso de conhecimento histórico, tomado no sentido mais amplo da palavra (que implica um elo profundo, mesmo que, às vezes, difícil de ser reconhecido, entre historiografia, historiografismo e cultura de massas), é um traço característico de nossa condição” (Vattimo, p.100).

Assim como falamos em cultura da memória e políticas da memória, podemos também falar em estratégias de esquecimento, que podem ser promovidas por interesses diversos, pessoais e coletivos, mercadológicos e políticos. As ditaduras latino – americanas, por exemplo, geraram políticas de esquecimento contrapostas pelas Comissões da Verdade instauradas em diversos países. Essas Comissões procuraram inscrever na memória as violências praticadas por esses regimes, trazendo novas configurações para a história desses países.

Diante disso, o paradoxo lembrar e esquecer nos questiona a respeito dos usos da memória e do esquecimento, seja em termos políticos, o que nos é permitido esquecer ou lembrar ? Quais são as manipulações da nossa memória? Seja em termos psicanalíticos, o que precisamos esquecer para podermos reconstruir nossas vidas cotidianamente?

Tal reflexão é fundamental para a sociedade contemporânea que, nas palavras de Andreas Huyssen, cultiva uma cultura da memória e onde tanto as lembranças como o esquecimento são passíveis de múltiplas formas de abuso, assim como ambos podem trazer benefícios na busca da verdade e da reconciliação.

A Misteriosa Chama da Rainha Loana

Yambo está com 60 anos, é um aficionado por livros e livreiro por profissão. Depois de um acidente, acorda no hospital e não se lembra de seu passado, a única memória que resta são histórias e personagens que leu nos livros. Recorda-se das aventuras de Dom Quixote, da vida de Charles Swan, de Em Busca do Tempo Perdido. Sabe das guerras, de Napoleão, de Tomás de Aquino, ou seja, lembra de tudo que leu nos livros. Tem agora uma memória de papel ou memórias ficcionais.

Acompanhamos Yambo numa busca ao passado, na tentativa de entrar na “caverna” da memória e conseguir recordar de seus próprios feitos. Nesse percurso nos divertimos com as memórias dos personagens ficcionais e com as confusões de Yambo entre ficção e vida real.  Como também nos angustiamos junto com ele ao não conseguir saber quem ele é, quem são as pessoas a sua volta, qual a relação que teve com elas, não conseguir identificar quais histórias fazem parte da sua vida.

Quando o personagem folheia o livro  de Santo Agostinho, “Confissões”, com páginas sublinhadas, sendo um sinal de que ele deve ter lido algum dia, Yambo cita trechos de reflexões de Agostinho sobre a memória: “Chego então aos campos e aos vastos palácios da memória, quando estou lá evoco todas as memórias que quero, algumas se apresentam de imediato, outras se fazem desejar mais longamente, sendo quase que arrancadas dos escaninhos mais secretos… Todas essas coisas a memória acolhe em sua vasta caverna, em suas sinuosidades secretas e inefáveis, no enorme palácio da minha memória recebo o céu, a terra e o mar juntos, lá me encontro a mim mesmo…”

O livro de Umberto Eco é uma reflexão sobre a memória individual e a memória coletiva, sobre o lembrar e o esquecer, e sobre os significados de nossas recordações.

Com o objetivo de entrar nessa caverna da memória, Yambo se aloja por algum tempo no sótão da casa do seu avô, aonde estão seus livros da infância e da juventude. Entra numa viagem de volta ao passado através dos personagens literários, das ilustrações dos livros e revistas que estão ali guardados há anos. Muitas dessas imagens são apresentadas para nós pelas ilustrações, que remetem às figuras que ele vai identificando durante suas leituras.

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Sherlock Holmes, personagem de Arthur Conan Doyle

A erudição de Umberto Eco e sua paixão pelos livros, com inúmeras citações de literatos, filósofos,  quadrinistas, entre tantos outros, contribui para que seja uma viagem para nós leitores, visitando livros, histórias e personagens e nos instigando à novas leituras.

 

O Leitor como Metáfora

“Somos criaturas leitoras, ingerimos palavras, sabemos que as palavras são nosso meio de estar no mundo, e é através das palavras que identificamos nossa realidade e por meio de palavras somos, nós mesmos, identificados.” (Alberto Manguel)

Nos últimos anos surgiram muitos questionamentos a respeito do futuro da leitura. Com o avanço das tecnologias digitais, o livro impresso tornou-se objeto a ser preservado diante do risco de sua substituição pelas mídias eletrônicas. Com o desaparecimento do livro, a leitura também se viu em xeque, não teríamos mais a capacidade de nos determos em textos longos.

Entretanto, mesmo com o aparecimento dos e-readers, tablets e demais suportes de leitura, o livro impresso continua sobrevivendo e ainda sendo o suporte preferido dos leitores.

Alberto Manguel, ensaísta e tradutor argentino, escreveu um pequeno livro com reflexões sobre o leitor de livros. Ele discorre a respeito de três metáforas utilizadas como referências aos leitores: a viagem, a torre e a traça. A partir dessas metáforas, Manguel faz um percurso histórico, pela filosofia e literatura, apontando como diversos autores abordaram em suas ideias e obras a questão do leitor.

Na Divina Comédia, Dante Alighieri convida seus leitores a companhá-lo em sua viagem, e são transformados pelo ato da leitura em personagens e companheiros de aventura do autor. Em Hamlet, Shakespeare coloca seus leitores diante do dilema entre o pensamento e a ação, entre confiar nos livros ou na realidade. E por fim, O Louco dos Livros, representado pelo Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, personagem que de tanto ler romances de cavalaria perdeu-se num mundo de aventuras imaginárias.

Resultado de imagem para dom quixote goya   Francisco de Goya. Don Quijote de la Mancha

Essas são apenas algumas das referências sobre o ato da leitura que Manguel explora no seu texto. Como leitores, ora nos identificamos, ora nos distanciamos da viagem, da torre e da traça. Mas nos deliciamos com as palavras tão bem escritas a respeito desse milenar “ofício da leitura”.

O Fim do Homem Soviético

A partir de 1985 a URSS passou por uma série de mudanças econômicas e políticas que ficaram conhecidas pelos termos russos Perestroika e Glasnot. Essas mudanças se inciaram com o governo de Mikhail Gorbatchev e prosseguiram com governantes posteriores como Boris Yeltsin.

É nesse cenário que se inserem os relatos transcritos no livro “O Fim do Homem Soviético”, da vencedora do prêmio Nobel de 2015, Aleksièvitck Svetlana. A autora entrevistou dezenas de pessoas entre 1991 e 2012, para falar de suas vidas cotidianas diante das mudanças que estavam acontecendo na Rússia.

Nesses relatos encontramos depoimentos daqueles que nasceram e cresceram durante o Império Soviético, que se formaram acreditando no poderio daquela nação e em todo o ideário professado pelo comunismo. Muitos estavam perplexos com as mudanças, deprimidos pela ruína de seu país, pelo empobrecimento de muitos e pela chegada dos valores capitalistas. Outros, acreditavam que a nova Rússia poderia trazer mais liberdade política e mais transparência para as ações do Estado.

As histórias desses personagens são incríveis, nos contam detalhes de suas vidas na URSS, sobre a escola, as conversas nas cozinhas, o medo de serem escutados, sobre o Partido Comunista, os trabalhos forçados, Stálin. Falam sobre os primeiros anos da Revolução Russa, a construção de uma sociedade que eles acreditavam igualitária, a união das Repúblicas, quando todos se tornaram irmãos em nome do comunismo. Depois nos falam do momento em que essas Repúblicas proclamaram suas independências, as inúmeras guerras e quando esses mesmos irmãos tornaram-se inimigos de sangue.

Os relatos são carregados de sofrimentos, pelas perdas que viveram, por não compreenderem as mudanças e não saberem para onde estavam indo. Para nós que os lemos eles são emocionantes e interessantes para nos aproximarmos de uma parte da História contemporânea e entrar em contato com os testemunhos dos que viveram períodos de grandes transformações.

 

É Isto um Homem?

Em 2017, celebrou-se 70 anos da publicação de “É Isto um Homem?”, de Primo Levi.  Esse autor italiano inaugura com seu livro uma prática memorial dos tempos de perseguição nazista aos judeus, como também o debate sobre história, memória e testemunho. Trata-se de um testemunho da permanência num campo de concentração, Primo Levi foi deportado para Auschwitz em 1944, tendo sobrevivido à dura rotina de maus tratos.

Ele descreve o dia a dia do campo de concentração, a luta pela comida, para resistir ao frio e às doenças que acometiam os prisioneiros. Eram obrigados a trabalhar horas e horas, ficar em pé nus no frio e castigados caso cometessem alguma infração.  Esses homens foram destituídos de tudo, de suas roupas, objetos e dignidade. Perderam suas lembranças, sua memória:” imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, tudo, enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será um ser vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido de dignidade e discernimento – pois quem perde tudo, muitas vezes perde a sim mesmo” (p.33).

Para relatar de fato essa realidade do “Campo de Extermínio”, seria necessário elaborar uma nova linguagem. A palavra Fome naquele lugar não expressa a mesma sensação para a qual dizemos “estou com fome”, frio também não, ou seja, para poder expressar de fato o que foi viver e sobreviver a todos os horrores de Auschwitz, as nossas palavras não bastam, elas são incapazes de dizer o significado daqueles dias. “Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por homens livres que viviam, entre alegrias e tristezas, em suas casas. Se os Campos de Extermínio tivessem durado muito tempo, teria nascido uma nova, áspera linguagem…” (p. 182)

Diante desse cotidiano, Primo Levi elabora a pergunta “É isto um homem?”. São homens esses prisioneiros transformados em esqueletos e submissos aos desvarios dos soldados nazistas? São homens esses soldados que castigam cruelmente outros homens? O que o homem chegou a fazer do homem?

Para se manter homem, Primo Levi procura singularizar-se pelo pensamento, manter a força das ideias seria a forma de se salvar num campo de concentração. Singularizar-se diante daquela massa de homens esgotados pelo sofrimento físico e moral: “Eles povoam minha memória com sua presença sem rosto, e se eu pudesse concentrar numa imagem todo mal do nosso tempo, escolheria essa imagem que me é familiar: um homem macilento, cabisbaixo, de ombros curvados, em cujo rosto, em cujo olhar, não se possa ler o menor pensamento” (p. 132).

O testemunho, a memória daqueles tempos, pode ter sido uma possibilidade de Primo Levi acessar às verdades ou significados do que passou. Pode representar uma forma de subverter o trauma, de persegui-lo e tentar eliminá-lo.  Para nós, é uma forma de conhecer um testemunho histórico e nos solidarizar com o sofrimento dos que viveram nessa condição.

Limonov

Limonov é um livro curioso. Trata-se da biografia do soviético Eduard Limonov, mas também é em alguns momentos autobiografia, já que o autor Emmanuel Carrère nos fala um pouco dele mesmo. Logo no primeiro capítulo somo atraídos pela linguagem que o autor utiliza para contar a história, um pouco jornalística, um pouco cinematográfica, pois tem um movimento narrativo que nos lembra um filme.

Mas logo em seguida somos fisgados pela história de Limonov, e ficamos na dúvida se esse personagem existiu de fato ou não. Parece surpreendente que ele tenha existido. Mas existiu, é bem contemporâneo, entretanto, eu não o conhecia.

Acredito que como todos que cresceram em plena Guerra Fria, muito se ouviu a respeito da URSS. Demonizada por uns, idolatrada por outros, mas sem sabermos de fato como era viver naquele imenso território do outro lado do mundo. Com a história que Carrère nos conta chegamos um pouco mais perto dessa imensa URSS e de seu declínio nos anos 90.

Limonov passou por vários momentos históricos, participando ativamente, como rebelde, dissidente, escritor, revolucionário, soldado, prisioneiro, decadente, enfim, assumiu um número grande de personagens no decorrer da sua vida. E pela história desses personagens Carrère nos fala do apogeu e declínio do Império Soviético.

Precisarão ainda muitos anos para compreendermos o que foi de fato o comunismo na URSS, o stalinismo, a relação com as repúblicas e a independência das mesmas ao final do Império. Não só para nós ocidentais, mas também para aqueles que estiveram diretamente envolvidos com os acontecimentos. ainda restam muitas imagens nebulosas.

Destaco uma frase do livro, referindo-se a acontecimentos da década de 90 na URSS, que me parece bastante elucidativa de como é difícil compreendermos e nos posicionarmos diante de determinados acontecimentos históricos: “Assiste-se em Moscou a ecléticas passeatas de aposentados reduzidos à mendicância, militares que deixaram de receber soldo, nacionalistas enlouquecidos com a liquidação do Império, comunistas nostálgicos do tempo da Igualdade na pobreza, pessoas desorientadas porque não compreendem nada da história: com efeito, como saber onde está o bem e o mal, quem são os heróis e quem são os traidores, quando se continua todos os anos a celebrar a Festa da revolução sem deixar de repetir que essa Revolução foi simultaneamente um crime e uma catástrofe?”

Mulheres da Nigéria

Buchi Emecheta é uma escritora nigeriana, muito conhecida em seu país, mas que pela primeira vez teve um livro publicado no Brasil, em 2017. “As Alegrias da Maternidade” conta a história de mulheres que lutaram para criar seus filhos, passando por diversos sacrifícios impostos pela própria maternidade e pelos homens nigerianos, nascidos e criados numa sociedade extremamente patriarcal.

A personagem central dessa história é Nhu Ego, que deixa a sua vida na aldeia de Ibuza para viver na cidade de Lagos. Ela seguiu uma trajetória comum a várias mulheres nigerianas que possuíam seu destino atrelado ao casamento e à maternidade. Uma mulher só alcançava reconhecimento na Nigéria de 1940 a partir do momento que desse filhos homens ao seu marido, garantia de eternidade para eles.

Os sofrimentos de Nhu Ego não estão somente relacionados ao subjugo patriarcal, mas também aos problemas trazidos pela dependência colonial, no caso da Nigéria a colonização era Britânica, e as desigualdades entre brancos e negros se davam nos postos de trabalho, na educação e nas relações sociais. Acrescenta-se ainda o crescimento das cidades nigerianas, como Lagos, para as quais muitos migravam em busca de trabalho, deixando para trás suas aldeias e laços familiares.

A partir da história que Buchi nos conta, nos afetamos profundamente com a história dessas mulheres e mais do que isso com uma sociedade colonial marcada pela opressão e pelo preconceito racial.