Autobiografia de Todo Mundo

“O mundo está coberto de pessoas e assim ninguém pode se perder mais e os cachorros não latem mais para a lua há tantas luzes em todos os lugares que eles já não notam a lua.”

“O mundo está coberto de pessoas”. Essa frase é repetida muitas vezes por Gertrude Stein no seu livro Autobiografia de Todo Mundo, publicado pela primeira vez em 1937. Penso que a frase pode ser lida de muitas maneiras. Traduz as mudanças do mundo após a Primeira Guerra Mundial, o crescimento das cidades, a aceleração provocada pelas máquinas, pela eletricidade e automóveis, os deslocamentos constantes e a agitação cultural dos anos de 1920.

Stein começa a Autobiografia de Todo Mundo com comentários sobre a Autobiografia de Alice B. Toklas, publicação anterior da mesma escritora, lançado em 1933. Essa última alcançou grande sucesso entre os leitores da época, mas também lhe rendeu muitas críticas. Algumas das pessoas mencionadas nos seus relatos se sentiram ofendidas, ou consideraram que Gertrude Stein não havia sido verdadeira nas histórias que contou sobre seus amigos. Ela menciona essas críticas, mas ao mesmo tempo parecia não se importar tanto, pois gostou bastante de ter alcançado sucesso com seu livro. Ela mesmo diz que tinha se tornado celebridade e gostava muito disso.

Em decorrência do enorme sucesso, Gertrude Stein e Alice fazem uma longa viagem pelos Estados Unidos, visitam muitas cidades e universidades, onde Stein realiza palestras e cursos para jovens estudantes. Com a escrita que lhe é peculiar, a escritora narra suas experiências como viajante e conferencista. Seu texto é construído sem pausas, sem vírgulas, com repetições de palavras e acontecimentos, com um fluxo contínuo de descrições e sensações. Nós, leitores, participamos da viagem, observamos os caminhos pelos quais passam, conversamos com quem elas encontram pelo mundo, coberto de pessoas.

O mundo de Gertrude Stein era coberto de muitas pessoas ilustres, pintores, intelectuais, escritores, músicos. Suas histórias são recheadas de curiosidades sobre essas personalidades, que a acompanharam por toda a vida. Seus escritos também nos contam sobre o próprio trabalho, o ato de escrever, seus livros, suas conferências. As diferenças entre ler, escrever e falar. Ou como ela mesma falava, o fora e o dentro, falar vem de fora, ler vem de dentro.

O mundo está coberto de pessoas, sejam elas europeus, asiáticos, americanos ou africanos. Todos indo e vindo de algum lugar. Stein morava em Paris, nasceu nos Estados Unidos, tinha empregados chineses, indianos ou poloneses. Na América conviveu com europeus, americanos, mexicanos. Falava dos negros que encontrava, das suas atividades, dos seus modos de vida. Seu mundo estava povoado de nacionalidades e de experiências com pessoas diversas.

A Autobiografia de todo o mundo é de todo mundo com o qual Gertrude e Alice conviveram algum dia. É um experimento literário, uma descrição de cotidianos banais, mas sem banalidade alguma.

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