Darwinismo, Raça e Gênero

O livro, “Darwinismo, raça e gênero: projetos modernizadores da nação em conferências e cursos públicos (Rio de Janeiro, 1870 – 1889), é resultado de uma tese de doutorado realizada na História Social da USP, em 2012.

Karoline Carula pesquisou espaços públicos onde eram proferidas conferências e realizados cursos,  na cidade do Rio de Janeiro durante o Império, entre 1870 e 1889: Conferências Populares da Glória, cursos Públicos do Museu Nacional e conferências “Avulsas”.

Nesse período o contexto social e político tornava premente discutir os temas relacionados aos negros, índios e às mulheres, na perspectiva dos projetos de modernização para o país. A partir de  1850, houve o fim do tráfico de escravos, gerando uma série de discussões sobre a situação do mercado de trabalho. Em 1871, foi promulgada a “Lei do Ventre Livre”, aumentado a necessidade de se pensar numa alternativa para a mão de obra, principalmente nas lavouras, aparecendo a imigração europeia e asiática como possível alternativa. E em 1870 o “Manisfesto Republicano” trouxe novas ideias a respeito do sistema político e da participação nas novas camadas médias urbanas.

As conferências públicas eram eventos de difusão científica, que agradavam uma parcela da camada letrada da sociedade carioca, que comparecia para adquirir conhecimentos em determinados assuntos, e sobretudo para manter relações de sociabilidade, reafirmando os lugares sociais de cada participante. Participavam ministros, médicos, jornalistas, estudantes, professores, médicos, advogados, engenheiros e a própria família real. Algumas mulheres também participavam, o que era visto como sinal de uma sociabilidade moderna e burguesa, antenada com os países mais avançados.

Nesses encontros as exposições dos oradores denotavam um discurso científico/cientificista, que servia de argumento para os projetos modernizadores da nação. Esses discursos se pautavam pela aplicação das teorias evolucionistas de Darwin para a sociedade e pela hierarquização racial e defendiam a educação da mulher para ser uma boa mãe. Civilizar e educar a população eram missões postas para o Império brasileiro, a fim de instruir negros, índios, mestiços, brancos pobres e as mulheres e assim acabar com os conflitos sociais e europeizar o Brasil.

A racialização da humanidade foi tema de muitas conferências públicas, hierarquizando a sociedade em termos raciais. As questões em torno da mestiçagem, do branqueamento da população e das dificuldades com os povos indígenas estavam presentes, a partir das teorias biológicas de Darwin, que foram apropriadas e ressignificadas para fins sociais.

A mulher foi tema de algumas conferências, visando instruí-las para serem boas mães e esposas, a partir dos preceitos da higiene e da medicina. O comparecimento das mulheres como espectadoras dessas conferências era pequeno, mas estimulado, para que elas pudessem desempenhar um papel melhor na sociedade. Entretanto a participação feminina como oradoras já não era encorajada, já que entre 1870 e 1889, apenas duas mulheres proferiram conferências.

A pesquisa de Karoline Carula é fundamental para refletirmos sobre a sociedade brasileira, pois revela a origem de muitas concepções que estiveram presentes na  no século XIX e que permaneceram ainda no século seguinte. Revela ainda a origem de, determinados preconceitos com relação aos negros e índios, que embasaram e permanecem até hoje sustentando,  determinadas visões e ações políticas em relação a esses grupos sociais. Por fim, é interessante perceber o papel atribuído à mulher nessas conferências, como objeto também a ser instruído ou civilizado, submetido exclusivamente aos determinantes da maternidade.

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