É Isto um Homem?

Em 2017, celebrou-se 70 anos da publicação de “É Isto um Homem?”, de Primo Levi.  Esse autor italiano inaugura com seu livro uma prática memorial dos tempos de perseguição nazista aos judeus, como também o debate sobre história, memória e testemunho. Trata-se de um testemunho da permanência num campo de concentração, Primo Levi foi deportado para Auschwitz em 1944, tendo sobrevivido à dura rotina de maus tratos.

Ele descreve o dia a dia do campo de concentração, a luta pela comida, para resistir ao frio e às doenças que acometiam os prisioneiros. Eram obrigados a trabalhar horas e horas, ficar em pé nus no frio e castigados caso cometessem alguma infração.  Esses homens foram destituídos de tudo, de suas roupas, objetos e dignidade. Perderam suas lembranças, sua memória:” imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, tudo, enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será um ser vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido de dignidade e discernimento – pois quem perde tudo, muitas vezes perde a sim mesmo” (p.33).

Para relatar de fato essa realidade do “Campo de Extermínio”, seria necessário elaborar uma nova linguagem. A palavra Fome naquele lugar não expressa a mesma sensação para a qual dizemos “estou com fome”, frio também não, ou seja, para poder expressar de fato o que foi viver e sobreviver a todos os horrores de Auschwitz, as nossas palavras não bastam, elas são incapazes de dizer o significado daqueles dias. “Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por homens livres que viviam, entre alegrias e tristezas, em suas casas. Se os Campos de Extermínio tivessem durado muito tempo, teria nascido uma nova, áspera linguagem…” (p. 182)

Diante desse cotidiano, Primo Levi elabora a pergunta “É isto um homem?”. São homens esses prisioneiros transformados em esqueletos e submissos aos desvarios dos soldados nazistas? São homens esses soldados que castigam cruelmente outros homens? O que o homem chegou a fazer do homem?

Para se manter homem, Primo Levi procura singularizar-se pelo pensamento, manter a força das ideias seria a forma de se salvar num campo de concentração. Singularizar-se diante daquela massa de homens esgotados pelo sofrimento físico e moral: “Eles povoam minha memória com sua presença sem rosto, e se eu pudesse concentrar numa imagem todo mal do nosso tempo, escolheria essa imagem que me é familiar: um homem macilento, cabisbaixo, de ombros curvados, em cujo rosto, em cujo olhar, não se possa ler o menor pensamento” (p. 132).

O testemunho, a memória daqueles tempos, pode ter sido uma possibilidade de Primo Levi acessar às verdades ou significados do que passou. Pode representar uma forma de subverter o trauma, de persegui-lo e tentar eliminá-lo.  Para nós, é uma forma de conhecer um testemunho histórico e nos solidarizar com o sofrimento dos que viveram nessa condição.

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