Limonov

Limonov é um livro curioso. Trata-se da biografia do soviético Eduard Limonov, mas também é em alguns momentos autobiografia, já que o autor Emmanuel Carrère nos fala um pouco dele mesmo. Logo no primeiro capítulo somo atraídos pela linguagem que o autor utiliza para contar a história, um pouco jornalística, um pouco cinematográfica, pois tem um movimento narrativo que nos lembra um filme.

Mas logo em seguida somos fisgados pela história de Limonov, e ficamos na dúvida se esse personagem existiu de fato ou não. Parece surpreendente que ele tenha existido. Mas existiu, é bem contemporâneo, entretanto, eu não o conhecia.

Acredito que como todos que cresceram em plena Guerra Fria, muito se ouviu a respeito da URSS. Demonizada por uns, idolatrada por outros, mas sem sabermos de fato como era viver naquele imenso território do outro lado do mundo. Com a história que Carrère nos conta chegamos um pouco mais perto dessa imensa URSS e de seu declínio nos anos 90.

Limonov passou por vários momentos históricos, participando ativamente, como rebelde, dissidente, escritor, revolucionário, soldado, prisioneiro, decadente, enfim, assumiu um número grande de personagens no decorrer da sua vida. E pela história desses personagens Carrère nos fala do apogeu e declínio do Império Soviético.

Precisarão ainda muitos anos para compreendermos o que foi de fato o comunismo na URSS, o stalinismo, a relação com as repúblicas e a independência das mesmas ao final do Império. Não só para nós ocidentais, mas também para aqueles que estiveram diretamente envolvidos com os acontecimentos. ainda restam muitas imagens nebulosas.

Destaco uma frase do livro, referindo-se a acontecimentos da década de 90 na URSS, que me parece bastante elucidativa de como é difícil compreendermos e nos posicionarmos diante de determinados acontecimentos históricos: “Assiste-se em Moscou a ecléticas passeatas de aposentados reduzidos à mendicância, militares que deixaram de receber soldo, nacionalistas enlouquecidos com a liquidação do Império, comunistas nostálgicos do tempo da Igualdade na pobreza, pessoas desorientadas porque não compreendem nada da história: com efeito, como saber onde está o bem e o mal, quem são os heróis e quem são os traidores, quando se continua todos os anos a celebrar a Festa da revolução sem deixar de repetir que essa Revolução foi simultaneamente um crime e uma catástrofe?”

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